Johnesburg - África do Sul - 07.01.08 - segunda
Foram 7.400 km atravessando o oceano atlântico em dez horas de viagem, até a cidade de Johnesburg – capital da África do Sul. O fuso horário diminuiu em 5 horas das 24 horas do meu dia, gerando um desconforto no organismo. No aeroporto da África do Sul, cheio de bichos embalsamados e fotos de safári, um relógio enzebrado marcava sete horas da manhã, enquanto no Brasil ainda era madrugada. Johnesburg é a cidade mais rica da África do Sul, com seus hotéis 7 estrelas, música fortes e cores vivas.. O sol nasceu já quente nos primeiros raios. Um Sheik passa com suas mulheres que caminham sempre atrás dele e de cabeça baixa, totalmente cobertas de panos e jóias. Olhos lindos, expressivos e muito pintados. Olhos, é só o que se consegue ver por trás das roupas coloridas de seda pura. Entramos novamente em outro avião a caminho de Mumbai – Índia, e ao servir o lanche, já se começa a sentir o sabor apimentado das comidas indianas. São mais oito horas por cima do Oceano índico. Para fazer uma viagem dessas é preciso um forte propósito. Talvez um bom propósito seja o de buscar referências em uma cultura com seis mil anos de sabedoria, para aprender a escolher dentro de critérios mais universais.
Desembarcando no aeroporto de Mumbai – no sul da Índia, ainda tonta com um fuso horário de 9 horas de diferença, tive que ir ao banheiro às pressas para abrir a mala e encontrar uma meia soquete para calçar. Meus tornozelos expostos estavam incomodando e fui convidada a escondê-los para entrar no país, sem chocar os hábitos da região, que considera um desrespeito o fato de uma mulher mostrar certas partes do seu corpo. Pela primeira vez na minha vida senti vergonha do meu tornozelo. Mesmo quando é calor, a maioria dos indianos usa blusa com mangas cumpridas e as mulheres vários panos e lenços coloridos. Fico imaginando aqueles guardas indianos procurando ver os biquínis das mulheres na praia de Copacabana. Sim, porque difícil no Rio de Janeiro é ver o modelo da roupa de banho, ou melhor, encontrar o “fio cheiroso” – termo usado pelos humoristas do Pânico na TV.
Os homens indianos me chamaram atenção pela profundidade do seu olhar e tamanho dos seus bigodes negros e vastos. Ao ver um bigode, tenho automaticamente uma coceira no pescoço - uma sensação adquirida há alguns anos atrás, sobre a qual me reservo o direito de não publicar.
Minha experiência no banheiro foi fantástica, ao ver um buraco no chão com um lugar apropriado para colocar os pés, de tal forma que as pernas fiquem abertas o suficiente para se fazer as necessidades. Cadê a privadinha básica? Estava em outro banheiro próprio para os estrangeiros – entrei na “casinha” errada. Na pressa não vi que se tratava de um banheiro usado pelas mulheres do local. No caminho do aeroporto para o Hotel, presenciei várias pessoas dormindo nas calçadas. Dizem que na época das monções – chuvas muito fortes – morrem milhares deles. Muitos moram embaixo de viadutos.
Quando o porteiro veio trazer as malas para o quarto, ensinou-me a ligar a TV e pasmem, aqui também tem novelas. A Índia está ocidentalizada? Só falta encontrar um templo da Igreja Universal. Talvez não seja tão fácil porque o povo indiano tem mania em cultuar imagens. Preciso cada vez mais me acostumar com as contradições. As contradições podem existir entre a verdade e o ideal, afirmava Platão.
Mumbai – Índia - 08 de Janeiro de 2008 – terça
O guia está a nossa espera com um ônibus para passear na cidade. Antes no café da manhã, me surpreendi com uma massa dura feito uma sola de sapato que eles chamam de pão. Imaginem se eles conhecessem um “carioquinha” bem quentinho que quando passado manteiga e enfiado no café...ô bicho bom de saboroso! Enquanto minha boca saliva pensando no pão com manteiga da terra, percebo que ao redor do pão indiano tem várias tigelinhas com molhos, cada um, de uma cor diferente. Um garçom de bigode, de forma ritualista, coloca uma banana verde ao lado da xícara de porcelana pintada. Pensei: O que eu vou fazer com uma banana verde? Por favor, não respondam, nem em pensamento, vamos manter o nível desta viagem espiritual. Esquecendo a banana, coloquei no que eles chamam de pão, o molho mais colorido que encontrei e dei uma grande mordida, para segundos depois sentir estar pegando fogo por dentro. Imagine uma fogueira lhe queimando o esôfago... ainda é pouco! Não conseguia falar e nem respirar. Coloquei as mãos na garganta e com olhos esbugalhados agarrei a tal da banana verde e mal tive tempo de tirar a casca. Aliviou bastante, mas o ardido da pimenta ficou o dia inteiro nas minhas cordas vocais, na língua, estômago e fígado,dentro dos dentes e nos ossos. Que absurdo comer pimenta pura de manhã! Pelo menos agora eu sei para que serve a banana verde.
Nossa guia – de túnica branca e com um ponto colorido pintado entre as sobrancelhas - começou a “ablar” em espanhol. Ela falava e eu só conseguia pensar no ponto colorido entre os olhos. Muitos indianos usam pedras, adesivos ou pintam esta região entre as sobrancelhas, que eles denominam de terceiro olho ou terceira visão, para nos lembrar de que a visão “normal” dos cinco sentidos é uma ilusão. Os nossos cinco sentidos só captam o formato das coisas e não sua constituição enquanto essência. Começo a ter uma chispa de compreensão quando Platão ressalta como atemporal o mundo das idéias e não o das formas . Platão afirmava que tudo o que se pode ver e tocar não é duradouro, até uma pedra de mármore tem um fim em algum momento.
Sobre as coisas do mundo dos sentidos, coisas tangíveis, portanto, não podemos ter senão opiniões incertas. Só podemos chegar a ter um conhecimento seguro daquilo que conhecemos com a razão. Aliás, nada garante que seria melhor ver a forma com os próprios olhos, isto porque nem sempre podemos confiar em nossos sentidos. A faculdade da visão pode variar de pessoa para pessoa – afinal “mapa não é território”. O que se capta da natureza não é o que ela é, realmente e sim a forma como eu a represento dentro de mim. Tudo o que vemos tem uma representação visual, auditiva e cinestésica tão peculiar e única como a impressão digital. O “território” são os estímulos externos da natureza, porém cada “mapa” é feito de acordo com as especificidades que compõem os filtros perceptivos de cada pessoa. Ou melhor, quando os cinco sentidos captam os estímulos externos da natureza, estes estímulos passam por filtros perceptivos e distorcem o objeto visto. Então quando eu vejo, na verdade estou vendo pelos filtros da minha percepção e não o que realmente é. No ocidente ficamos presos e limitados ao que vemos com nossos olhos físicos. Os orientais olham pelo terceiro olho e enxergam além.
Enquanto reflito no significado da terceira visão, o ônibus entra em ruas apinhadas de carros de todos os tipos e marcas, desde aerowilles, Opell até Mercedes Bens e Porshe. Ainda mais motos, triciclos, bicicletas, carros de boi e milhares de pessoas misturadas com animais que andam na rua com mais tranqüilidade que os humanos. São 18 milhões de habitantes, e mil pessoas que chegam diariamente na cidade querendo encontrar um emprego. Mumbai é considerado um grande Eldorado. As buzinas são ensurdecedoras e o trânsito é caótico, da perspectiva de um ocidental, mas nenhum desastre e atropelamento acontecem. È um fenômeno a ser estudado. Eles aprenderam de uma forma espetacular a conviver e fazer sintonia com o caos. Espelham-se nas abelhas que voam bem juntinhas e não batem uma nas outras.
Todos os lugares em Mumbai têm muita gente. A estação de trem que liga o subúrbio aos melhores bairros e ao centro comercial da cidade, tem um fluxo de 20 mil pessoas por dia. O imenso prédio mais parecido com a entrada de um palácio foi construído no ano de 1.800 e tem uma arquitetura gótica, todo cheio de esculturas em pedras frias, espelhos e vidros nas janelas, que vão até o ponto mais alto, com desenhos triunfantes de figuras que não sei explicar. É considerada a primeira estação de estrada de ferro da Ásia.
Enquanto Nova Delhi é a capital política, Mumbai é a capital financeira, com diversos templos, mesquitas e até igrejas. 80% da população é hindu, com trinta mil Deuses e Deusas. 11% são muçulmanos e 5% são cristãos. A maioria acredita que ações geram reações – o que eles chamam de “carma”. Talvez seja esta a razão pela qual, mesmo havendo desigualdade social, a violência é baixa. Eles pedem esmolas, mas não roubam. Eles sentem fome e não se revoltam.
Para a maioria dos indianos, Deus é como a água – sem cor e forma, adquirindo várias formas, assim como as goteiras. Linda metáfora para descrever Deus e suas diferentes formas de manifestação.
Acreditam em três formas básicas: Bhrama, Vhisnu e Shiva. Bhrama como o criador representando o nascimento. Vhisnu, o protetor da vida, e Shiva, o destruidor representando a morte. Explicam que para uma nova planta poder nascer, a semente deve morrer. Reza-se para Shiva, a fim de facilitar destruir os velhos hábitos condicionados do ego, que precisam ser destruídos para dar espaço à vida. O interessante neste raciocínio, é que morte não é o contrário de vida, e sim de nascimento. Acreditam eles que nascem e morrem várias vezes até conseguir a iluminação. O Deus mais popular deles é o Ganesha – considerado o Deus da Boa Sorte. Aí está a explicação da sua popularidade, afinal de contas, quem de nós não precisa de uma boa sorte?
Antigamente, o povo era divido por castas. Primeiro os Bramanes, isto é, a classe dos Sacerdotes. Segundo, os Guerreiros e em terceiro, os obreiros, que sem liberdade de escolha, faziam os serviços mais pesados, inclusive os de limpeza. Estes podiam ser barrados e impedidos de entrar para a sociedade. Inicialmente, as castas eram decididas pela própria maneira da pessoa se comportar. Depois, pela cor da pele ou por nascimento. Hoje, está em desuso.
A cidade possui 17 idiomas com escritas diferentes, e o idioma que une todos os habitantes é o inglês britânico. Isto acontece porque antigamente a Índia não era um país e sim uma reunião de vários reinos.
Mumbai é uma cidade cosmopolita com muitos contrastes, e totalmente artificial, isto é, foi criada pelos ingleses. Enquanto os portugueses, como colonizadores, se interessavam mais pelas especiarias e religião, os ingleses faziam a exploração comercial. Construíram também muitas praças bem arborizadas, muitos campos de golfe e cricket – jogo onde alguém joga uma bola e um “abestado” com um bastão na mão, quando acerta a bola, joga o bastão fora e sai correndo feito um doido.
Outra construção majestosa dos ingleses é o Gateway of Índia – o Portal da Índia que foi erigido onde os navios ingleses aportavam para comemorar o desembarque do Rei George V em 1911. A construção tem um hall para acomodar 600 pessoas, caso a rainha, quando desembarcasse do navio, desejasse trocar de roupa. É muito luxo gente! Hoje, em desuso, crianças e pombos brigam pelas migalhas de comida que caem no chão.
Em frente ao Portal da Índia foi construído o Tajamahal Hotel – um dos prédios mais lendários da cidade e um ponto turístico muito visitado. Sua estrutura foi elaborada com charmosas cúpulas e uma decoração exótica, feita por artistas indianos em parceira com arquitetos britânicos. O Tajamahal é considerado um trabalho de arte desde suas pinturas nas janelas, até os elegantes quartos com uma maravilhosa visão do mar e do majestoso Portal da Índia.
Mumbai é um nome português, antigamente Bombaim que significava Boa Baia. Aqui a vaca, como em toda a Índia, é sagrada por ser símbolo da fertilidade. Na Índia, chamar a sogra de vaca é elogio. A Praia em Mumbai não é um lugar para entretenimento, onde as famílias no domingo se reúnem para beber uma cerveja, comer caranguejo, escutar música e se bronzear. Aliás, o indiano já é bronzeado por natureza. Para eles, praia é um local onde entram vestidos com seus trajes comuns para se refrescar do calor, e depois de secar continuam a jornada. Andei por quilômetros de uma avenida costeira e não vi ninguém vestido de roupa de banho.
Quando os ingleses colonizaram a Índia, consideravam a cor escura da pele um sinal de sub-raça. Conta-se que Gandhi foi retirado de um vagão de um trem em que viajava e suas bagagens jogadas no chão, porque resolveu entrar na ala nobre reservada para os de pele clara. Este incidente fez com que ele, ainda jovem, resolvesse estudar advocacia na Inglaterra e voltar ao seu país para libertá-la do julgo britânico. Teria sido mais estratégico para a Inglaterra se tivessem tratado o Gandhi com um pouco mais de cortesia. Um simples gesto pode desencadear uma revolução. É maduro pensar nas conseqüências dos atos.
Para o ônibus em que eu estava, chegar ao local do passeio, é um verdadeiro exercício de paciência. Qualquer distância dentro da cidade devido o trânsito sem regras, demora aproximadamente três horas. Nos locais onde descemos, as pessoas avançam para pedir esmolas ou vender algo. Para vender usam a tática da insistência, repetindo a mesma coisa por várias vezes e à medida que você não os entende aumentam o volume da voz, até que dá um medo e a gente compra mais pelo cansaço e para se ver livre da gritaria e algazarra que eles fazem. Foi assim que eu comprei os meus dois primeiros objetos: um tambor de Madeira trabalhada e uma tornozeleira de prata.
Os vendedores ao verem a fita verde e amarela pendurada no pescoço , que me identificava como turista brasileira, começavam a gritar: “ Futebol…futebol…Pelé, Pelé…samba…samba. Os mais novos diziam ..Ronaldo…Ronaldo” Para me proteger, comecei a fazer um curso rápido de como me livrar dos vendedores de rua mais insistentes. A tática era a seguinte: quando o bando se aproximava eu entrava em uma loja e esperava eles saírem. Alguns descobriram e passaram a se esconder também atrás das colunas. Quando eu pensava que tudo estava calmo e saia da loja, eles corriam e começavam a gritaria novamente. Ficava muito confusa porque todo o barulho que eles faziam se misturava com as constantes buzinas dos carros o que me fez esconder na bolsa a fita verde e amarela (que me identificava como turista brasileira). Nada adiantou, porque o meu tipo físico me diferenciava dos demais. As bijuterias são lindas, as mulheres indianas se enfeitam da ponta dos cabelos aos dedos dos pés. Não são nada discretas e adoram brilhos e cores fortes contrastantes. Até as mendigasse enfeitam. Foi nelas que o Gilberto Gil se inspirou para escrever aquela música “Gente é feita prá brilhar e não prá morrer de fome”.
No primeiro templo visitado aprendi que a suástica usada pelo Hitler é um símbolo antigo de origem Indiana. Aprendi também que muito mais importante do que conhecer o templo é a preparação interna para entrar no templo. Primeiro entra em estado de profunda concentração. Depois, um sentimento de humildade pelo que não se conhece. Platão dizia que “Nossa razão não é a medida da verdade”.
As visitas aos templos são as nossas experimentações com a verdade oriental construída no decorrer de seis mil anos ou mais de existência. Apreciar a beleza física não é o suficiente para conhecer verdadeiramente o templo. Necessário se faz entrar na energia do sagrado. Considerado sagrado por ser um espaço onde a pessoa transcende a sua condição humana para chegar à deidade. Minha maior emoção do dia foi entrar no Museu de Gandhi e olhar o espaço em que ele fiava as próprias roupas em protesto contra os ingleses que compravam o algodão da Índia a um preço abaixo do valor para vender por um preço exorbitante. Quando foi estudar na Inglaterra, ao se despedir da mãe, Gandhi fez três promessas: Não beber álcool, não comer carne e não tocar em mulheres. Só conseguiu cumprir as duas primeiras. Mesmo uma grande alma tem suas tentações. Quanto mais eu que sou uma pequena alma. A parte dos instintos é a mais desafiadora de ser controlada.
O fato de aceitar sua parte instintiva, não invalida a grande obra de Gandhi. A libertação da Índia, usando a arma branca da “não-violência” foi um grande feito histórico. Porém o maior ensinamento foi a coerência e simplicidade. Vestia-se com as roupas que fabricava, andava a pé e comia com parcimônia. A firmeza do caráter não afetava a leveza do espírito. Emocionada, subindo as escadas de madeira da casa onde Gandhi morou na cidade de Mumbai lia as frases inspiradoras do Mahatma “Todo homem é um artista da sua própria fortuna” , “A pintura é um poema sem palavras”.
Nos outdoors da cidade percebe-se a tentativa de ocidentalização da Índia. Vi uma lanchonete do Mc’ Donald e a Pizza Hutt. A cultura ocidental já existe fisicamente, mas não no espírito da maioria do indiano. A noite chegou e o ardido da pimenta ainda persiste na minha garganta.
Mumbai – Índia - 09 de Janeiro - quarta
Desta vez, no café da manhã aceitei a banana verde de bom grado, esboçando um largo sorriso para o garçom de bigode. Por sinal, hoje pude perceber que todos tinham bigode. “Cumprimentei-o com um grande sorriso brasileiro nos lábios e um respeitoso Namastê, que significa: - O Deus que está em mim também habita em você”.
Não coloquei nenhum molho na massa parecida com sola de sapato, embora me sentisse tentada a provar um que se parecia com geléia. Com saudades do café da minha casa entrei no avião que me levaria a Bangalore. No lanche do avião, no lugar da banana verde tem uns caroços de semente de erva-doce para tirar o gosto da pimenta. Preferi não provar mais nenhum molho por mais bonita que fosse sua cor. Ao beber o suco de limão senti um gosto muito diferente. Pasmem: eles colocam sal no suco de limão. Até o suco tem tempero. Minha avó diria: “Chagas de Cristo, Coração ferido”! Escolhi citar a minha avó como uma maneira de continuar a descrever os fatos de forma elegante, porque se eu fosse dizer no clássico cearense exclamaria “Que diabo é isso!”
Ao descer do avião, no aeroporto de Bangalore, fui ao câmbio para trocar dólares por rupías. Uma cédula de 100 dólares representa 3.773 rúpias. Senti-me rica. No entanto despreparada pela lidar com a moeda local tive uma série de prejuízos. Resolvi fazer alguns cálculos para não perder as referências, do tipo: 100 rúpias representam 2,5 dólares. Um dólar custa 37,73 rúpias.
Nas ruas durante os passeios, não consigo disfarçar minha curiosidade em olhar as mulheres muçulmanas vestindo suas burkas. São verdadeiros urubus com olhos humanos. Reparei que não há demonstração pública de carinho entre casais. Não é hábito da região que os casais andem de mãos dadas ou abraçados. Por sinal, a mulher anda um pouquinho atrás do homem. Dado o crescimento exponencial da população, penso que este distanciamento dos corpos é somente durante o dia.
Os dias têm sido muito intensos, com muitas coisas para aprender em sua maioria pela primeira vez. Estou como criança fazendo do mundo é uma grande novidade. É delicioso viver assim...tudo é uma grande surpresa e nada é igual como antes. É este o mundo cheio de coisas diferentes que a criança vive…. gostoso e excitante!
Camionetas brancas, do tipo das usadas em Safári nos esperaram para outra viagem. Três horas de estrada (180 Km) para nos levar a cidade de Putaparthi.
Depois de quatro dias de viagem, finalmente chego ao meu destino – o Ashram de Sathya Sai Baba. Atualmente tem apartamentos com camas, banheiros e ventiladores de teto, para alojar três mil e quinhentas pessoas, shopping, padaria, restaurante, loja de câmbio, lanchonetes, correio, central telefônica, rádio, local de oração com espaço para cinco mil pessoas e muita área verde, alem de museus e um banco. Custo de dois dólares a diária e alimentação completa custando mais um dólar. Além disso, o centro administra um hospital, creches, asilos e escolas gratuitas. A comida é vegetariana pura, não inclui ovos nem qualquer coisa de origem animal.
Chegar a Putaparthi partindo de Fortaleza foi uma viagem de quatro dias. Muito rápido se considerarmos que Vasco da Gama, navegador português, passou muitos meses para encontrar o cabo da Boa Esperança, assim intitulado porque era o ponto do sul da África que o levaria para o Caminho das Índias, onde se podiam comprar as especiarias.
Na Índia, as mulheres têm o hábito de estar totalmente cobertas porque acreditam que a mostra de partes do seu corpo distraem o homem de sua conexão com a divindade.
Eva então fez o maior estrago da humanidade. A despudorada da Eva é culpada pelo fato do homem ter quedado e saído do paraíso. Hoje todos nós poderíamos estar com asas, tocando harpas e pulando de nuvem em nuvem. Para isto, bastava Eva ter usado uma roupa mais composta do que uma folhinha de parreira. Hoje, por causa dessa Eva inconseqüente só podemos pensar no Paraíso. Pensar no Paraíso é uma boa forma de ter bons sonhos.
As expectativas borbulham na minha cabeça pois estou na iminência de conhecer de perto o maior Avatar da Índia contemporânea: Sathya Sai Baba. A palavra Avatar significa descida a terra de uma grande concentração de energia. Quanto mais se aproxima a hora, mais a ansiedade aumenta. Lembro-me de quando a minha filha Joana Augusta tinha seis anos, sentia uma imensa vontade de ver o Sidney Magal. No dia em que conseguimos comprar o ingresso, esperar horas no desconforto de uma fila, enfrentar uma multidão se esmagando numa porta pequena, abrir o caminho a custa de muito sofrimento e finalmente chegar perto do cantor. Quando o Magal olhou para ela e disse: “- Oi menina”, ela literalmente desmaiou. A emoção foi tão grande que deu uma “pilora” na menina e por mais que a balançasse, ela não respondia. Quanto a mim, quando vir o Saibaba irei manter o controle, ou não.
Putaparthi 10 de Janeiro - quinta
O clima, atualmente é quente e seco, quase o ano todo, com manhãs agradáveis ao nascer do sol. Em alguns momentos do ano, vem uma onda fria por causa do Himalaia. A roupa, quanto mais pano, mais alinhada a mulher está. Eu mesma estou me achando mais parecida com um saco de batatas. As mulheres pegam uma peça de fazenda de três metros e se enrolam para formar um vestido… deve ser mais fácil na hora de tirar pois não tem botão e nem ziper. Tem homem que usa um fraldão que eu não sei o nome, mas as roupas mais comuns são os “punjabs” uma espécie de pijama de calça por baixo e camisão por cima. A maioria é de cor branca. Outras com cores bem fortes e vivas.
Todas as minhas roupas foram condenadas pelas indianas do local. Precisei reformar o meu vestuário, e olhe que eu trouxe as mais decentes que encontrei em meu guarda roupa. Tive que ir em uma loja para comprar uns xales para cobrir os ombros que não podem, por hipótese nenhuma ficar a descoberto. O ventre até se pode mostrar porque é considerado sagrado,mas o ombro, não sei porque é um pecado. Outra coisa importante é prender os cabelos compridos, lisos e negros com fivelas enfeitadas ou fazem um cócó de tranças. Cabelo solto é um absurdo.
Ao chegar no Ashram, os visitantes recebem uma série de orientações do guia quanto ao comportamento e respeito ao ambiente e ao jeito indiano de ser. Além dos cuidados com o corpo, os comportamentos devem ser observados, no sentido de promover a harmonia, a disciplina, a paciência, a tolerância e o amor. Li uma frase, logo de manhã, na padaria do Ashram que dizia “Help ever, hurt never”, traduzindo “Ajudar sempre, ferir jamais”. Só o cumprimento desta frase já é o suficiente para tornar uma pessoa especial.
Cada grupo tem um distintivo para identificar o país de origem. O Brasil é um dos que mais causa sorrisos no rosto do indiano. Somos um povo agradável e bem aceito.
O caminho espiritual não é fácil, pelo contrário, são muitos os desafios. Trata-se de um processo purificador no qual se defronta constantemente com as próprias falhas e fraquezas. E isto foi o que aconteceu comigo. Ao chegar no alojamento junto com as colegas, comecei a sentir dificuldades e incômodos com o fato de ter que dividir espaços e não ter um momento comigo mesma. Não estou habituada a dar satisfação dos meus horários. Nem a estar escutando os outros falarem quando eu estou querendo silêncio para ler. Também não é agradável ficar segurando a urina ou algo mais sólido enquanto a companheira de quarto toma banho. O banheiro era disputado por todas do quarto e sempre tinha fila. Para esperar deitada na cama instituímos o processo de senha. Haja compreensão, tolerância e paciência para conviver. Viver é fácil, conviver é que é desafiador. Desta forma, dormi muito mal e acordei pior ainda às quatro horas da madrugada para pegar um bom lugar perto de onde passaria o Sai Baba. Corri para a entrada do tempo o mais cedo que pude e encontrei um monte de gente que chegou antes de mim. Fiquei sentada em posição de estátua quase cinco horas. Haja compreensão, tolerância e paciência quando tem uma multidão querendo a mesma coisa que você quer.
O Sai Baba apareceu as nove e meia da manhã. Em uma cadeira de rodas transitando por entre os devotos. Quando ele entra, só a presença dele, faz circular uma energia de paz como um perfume que se espalha e permeia todo o ambiente. Sem motivo consciente, meus olhos encheram-se de lágrimas doces e cheias de alegria. A palavra “bem-aventurança” talvez seja a que mais represente o sentimento dominante quando se está perto de Sathya Sai Baba. Quer se acredite em Sai Baba ou não, a energia que ele emana atinge a todos: crentes e descrentes, devotos e turistas curiosos. É uma experiência indizível. Mesmo assim, mantive a postura. Minha mãe dizia que “o segredo da elegância é a eterna vigilância”. Assim, não desci do sapato alto. Perco o ônibus, mas não perco a classe. Continuei com a postura contemplativa mesmo quando ele se aproximou de mim.
Passei o dia com o coração redondo de tanto amor que senti. E com as nádegas quadradas do tanto que fiquei sentada em posição de lótus.
Enquanto não faço um curso no Japão para aprender a andar em bando, fui procurar um Hotel para ficar hospedada, fora do Ashram, por dez dias. Perdoe-me mas eu preciso de um lugar só prá mim. Eu estou com saudades de mim mesma.
Quando comuniquei minha decisão ao grupo, senti um grande alívio por parte de todas que dividiam o quarto comigo. Soube depois que o meu ronco, não deixava ninguém dormir. Bem que eu meu marido dizia que eu roncava e eu não acreditava.
No Hotel encontrei espaço para aquietar o meu ego, ainda grande demais para se permitir compartilhar armário, banheiro, comida e cama com outras pessoas. Considero esta minha atitude bastante individualista, e comuniquei a uma pessoa do grupo que estaria me preparando para retornar ao convívio da turma, já mais compreensiva e dentro de um sentimento mais fraternal. Minha colega apavorada com minha decisão em voltar a conviver no grupo, passou duas horas me convencendo a permanecer no Hotel. Ela me disse que eu não precisava me espiritualizar tão depressa assim, que talvez eu precisasse passar mais tempo sozinha no Hotel, pelo que percebi que minha ausência estava trazendo mais benefícios ao grupo do que minha presença.
Realmente a convivência é um grande desafio até com as pessoas que amamos. Viver é fácil, mas conviver é algo que preciso aprender. No convívio é como a gente realmente se conhece, porque é o outro que sofre as conseqüências de quem a gente é.
Depois de passar alguns dias sofrendo com coisas estranhas que chamam de comida, e sem entender os pratos dos cardápios nem as explicações dos garçons bigodudos, resolvi armar um esquema de sobrevivência:
1- Escolhe-se o restaurante pelo aspecto e quantidade de mesas ocupadas. Se tiver muita gente é um bom sinal. Detalhe: todos os restaurantes são repletos de gente.
2- Anda-se por entre as mesas observando os pratos servidos e escolhe aquele que tiver o melhor aspecto. Detalhe:Quem vai pelo aspecto pode se decepcionar com o gosto.
3- Chama-se o garçom, de preferência um que seja bigodudo e diz: “The same” que em inglês significa “mesmo” e aponta o prato escolhido. Detalhe: Pode prestar ou não.
Assim alimentar-se na Índia é uma questão de sorte e muitas vezes de fé. Por sinal, não tem gente gorda na Índia, principalmente os homens são magros, na sua grande maioria.
Putaparthi – 11 de Janeiro de 2008 (sexta)
Resolvi andar pela cidade e comprei um mapa. O mapa não é o território mas facilita o conhecimento dele. No final do dia já conhecia a cidade toda, já sabia as lojas com os melhores preços de roupas, sapatos e jóias. Acometida da síndrome ocidental, comecei a comprar mais porque o produto era barato do que pela necessidade. Percebi e parei em tempo. Estava comprando muita coisa sem necessidade real. Dei um freio na compulsão e comecei a visitar as lojas mais para conhecer e apreciar.
Na hora do almoço, uma loja estava com a porta encostada e umas almofadas no chão do lado do fora. Além disso ainda tinham: imagens de elefantes e instrumentos musicais apoiando uma placa que dizia: FECHADO PARA ALMOÇO. A fome daqueles mendigos não era suficiente para fazer com que eles roubassem os objetos fáceis de serem levados. A fome maior era da espiritualidade. Aqueles mendigos eram bem mais ricos do que eu pensava. Eles pedem dinheiro insistentemente, mas são incapazes de roubar. Passei a dar um prato de comida e os via comer com o mesmo gosto com que eu como baião de dois com feijão verde pregado no queijo coalho e um bocado de paçoca. Ah! Aquela paçoca de carne de sol passada no pilão com cebola vermelha, alho e farinha. A bebida pode ser um suco de maracujá ou seriguela ou cajá. Depois uma tora de rapadura. Sonhei tanto com comida que engordei.
Pensando nessa comida, entrei em uma lanchonete para tomar água mineral que era a única coisa parecida com o meu Ceará. Paguei e sai do local lotado de gente que mais parecia o Mercado São Sebastião no sábado de manhã . Percebi que alguém se abaixou logo atrás de mim e me seguiu falando alto. Pensei comigo mesma: - Lá vem outro pedinte, e procurei me afastar andando apressadamente. Para surpresa minha, o pedinte puxou meu o braço para devolver meu baton e algumas rupías que caíram da bolsinha por não ter fechado o zíper até o final. É gostoso quando alguém lhe devolve algo que você perdeu. Dá uma sensação de confiança no ser humano que eu gostaria de perpetuar. Imagine uma vida em que se pudesse confiar no outro verdadeiramente? Ao imaginar este paraíso minha respiração ficou mais profunda e senti um alívio de tensão em todo o meu corpo. Sonho de brasileiro é ver uma cena dessas nos corredores do Congresso em Brasília. Confiar que os nossos governantes estão reunidos para pensar no melhor para o povo. Ah! Este estado de confiança nos faria um povo mais feliz, com menos cerveja. Nossa vida se tornaria um carnaval diário.
O maior aprendizado desde dia foi que a pobreza, necessariamente não gera ladrões e corruptos. Este é um excelente exemplo de pobreza material e riqueza moral. Temos a mania de justificar o roubo com a situação econômica do ladrão. No entanto o que falta é caráter e valores espirituais. Diz o filósofo Jorge Angel Livraga que os Valores do Espírito são insubstituíveis e que aqueles que os esquecem estão condenados por si próprios a viver e morrer na mentira e artificialidade. Lições preciosas!
Putaparthi – 12 de Janeiro - sábado
Acordo de manhã e nem mais me lembro da pimenta e da utilidade da banana verde. Hoje me deu vontade de falar com a minha família no Brasil e tive que esperar o dia inteiro para que o pessoal acordasse e eu pudesse fazer uma ligação telefônica. Quando o meu povo acorda no Brasil, aqui na Índia a casa de telefonia fecha. Passo o dia esperando o meu pessoal acordar e quando eles acordam é hora de ir dormir aqui na Índia. Interessante enquanto um povo está desperto o outro está dormindo e vice-versa.
Neste dia fiz muitas amizades e comecei a me dar conta que o nome das pessoas aqui na Índia são muito parecidos com tudo aquilo que um inseticida pode matar do tipo: Bararatah, Aranhan, Rhataf e outras semelhanças. O último nome que aprendi foi de um muçulmano que vende prata e tem muita vontade de conhecer o Brasil. O nome dele é Altaf e se me esqueço da pronúncia, chamo de Alface…. couve…vagem….pepino….e outras verduras verdes. Assim como nos nomes, ainda estou um pouco confusa no lidar com o dinheiro. Perder as referências significa não poder fazer uma avaliação. Lembrei que a quantidade de reformas econômicas no Brasil quando se muda a moeda faz com que o povo perca as referências do valor do seu dinheiro, do tipo: um cruzado corresponde a três cruzeiros. Depois um real passou a corresponder três cruzados. Para conseguir descobrir a perda real do poder aquisitivo lembrei-me que quando passei no concurso do Banco do Nordeste do Brasil, economizei meus três primeiros salários e comprei um fusquinha zero. Hoje um funcionário do mesmo banco precisaria poupar o salário de dez meses para comprar um carro popular. Não precisa entender de matemática para concluir que as reformas econômicas nos empobreceram.
Logo quando cheguei estranhei a forma como os indianos falam uns com os outros e com os estrangeiros. Eles não escondem quando não gostam de uma coisa. São intensos e sinceros. São tranqüilos e concentrados ao ponto de ficarem horas em uma fila (e para tudo existem filas quilométricas) sem reclamar ou esboçar nenhuma expressão de raiva ou cansaço. Agora, se por alguma razão você fizer algo que foge aos costumes, eles gritam e gesticulam nervosamente. “Nervosamente” na percepção do ocidental. Hoje entendo que nós ocidentais é que vivemos escondendo os nossos sentimentos, e em nome dos “bons modos” não expressamos a nossa verdadeira indignação. Os indianos são verdadeiros na expressão dos seus sentimentos.
Eu mesma entrei numa loja e dois vendedores começaram a gritar comigo. Fiquei apavorada, paralisada, olhei para trás pensando que o Bin Laden estava do meu lado. O medo crescia à medida que eles gritavam mais alto. Ainda tremendo abri a bolsa para pegar o meu passaporte, quando eles ficaram apontando para o meu pé. Pensei que fosse talvez o fato de estar com o pé exposto na sandália fosse o problema e voltei para a porta a fim de encontrar uma loja onde eu pudesse comprar um sapato fechado ou uma meia, quando já na saída um deles se abaixa no chão e faz um gesto para tirar as minhas sandálias. Cometi a insensatez de entrar em um ambiente de sapato. Aqui e em todos os lugares – restaurantes, lojas comércios, casas de família... entra-se com os pés descalços. Eles têm o hábito de tirar o sapato quando se entra em ambientes fechados. É impressionante. Depois que eu tirei as sandálias eles esboçaram um grande sorriso e foram super amáveis. Tirar os sapatos segundo o rabino Nilton Bonder é se despir de nossas defesas e entrar em contato com o que realmente é. No livro Tirando os Sapatos ele fala da importância de se despir das crenças, dos costumes e de tudo o mais que nos limita para pisar e sentir o território do outro do jeito que ele é. O processo de tirar os sapatos pode ser um exercício revelador, de conhecimento de si e do outro, mostrando que o mesmo referencial pode embasar diferentes formas de verdade.
Meio apaixonada pelo simbolismo do hindus optei em comprar algum objeto que tivesse o símbolo do OHM, Cds de músicas indianas, um tecido de puro algodão indiano e um elefante de mármore todo desenhado. Dizem que dá sorte e eu decidi acreditar. Acreditando na sorte existe mais probabilidade que ela aconteça. Por falar em “OHM” este é o som que o corpo humano emite quando está em completo silêncio. É um mantra muito usado nas orações indianas. Interessante de constatar é a tendência das mulheres do grupo do Brasil de ao invés de OOOHHHMMM dizer HOOOOMMMMMEEEEEE. Esta derivação do som original que criamos não foi permitida e tivemos de nos policiar para dizer de forma correta. Minha colega resolveu intercalar, para cada um OHM pronunciava dois HOMEM. Cada devoto pede o que mais necessita. A boca fala do que o coração está cheio...ou vazio.
Putaparthi – 13 de Janeiro - Domingo
Nesta cidade o domingo é um dia normal igual a todos, os outros no qual as pessoas vão aos templos e as mesquitas para rezar, rezar, rezar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, comer pimenta, rezar, rezar, rezar e dormir. Não tem segunda-feira no Pirata, nem quarta-feira no Clube do Vaqueiro, nem quinta no Chico do Caranquejo , nem cinema, nem passeio, nem teatro, nem bares ou casas noturnas ou passeios ao Iguatemi.
Todos os dias são absolutamente iguais em termos de hábitos. Hoje, inclusive oito horas da noite, todos os habitantes estão trabalhando e todos os esmolés estão pedindo esmola e a cidade inteira está funcionando, enquanto em Fortaleza são 10 horas da manhã e as famílias estão chegando à praia para curtir um sol maneiro e uma cervejinha super gelada tirando o gosto com uma patinha de siri. Agora bateu uma saudade! Vou parar por aqui. O mundo gira e cada povo está em um horário.
Putaparthi - 14 de janeiro – Segunda
Apesar de cronologicamente terem passados sete dias, a sensação interna é de um espaço de tempo maior em virtude da intensidade com que se vivencia cada momento. Já estou mais habituada a só falar inglês embora não seja fluente tenho conseguido me fazer entender com mais facilidade e menos mímica. O melhor mesmo é estar me distanciando ou melhor, desaprendendo o hábito do julgamento. A mente é viciada em fazer comparações com aquilo que já vimos e já conhecemos. O foco no “já visto” e no “já conhecido”, sempre se repetindo num círculo vicioso, é doentio e aprisionador. Quero limpar a mente e coloco consciência no processo como se eu fosse uma terceira pessoa que pudesse me observar. Aprendo mais comigo mesma quando me olho de longe.
A alimentação vegetariana contribui para uma limpeza no organismo e as práticas diárias aumentam a concentração para o interior. Estou diferente por dentro...algo começa a acontecer!
Consigo perceber que na maneira deles, os indianos são felizes com suas fortes crenças em suas deusas e deuses sagrados. Cada um pensa que está certo na sua fé. Conhecer e respeitar a fé do outro, é uma maneira inteligente de compreender, a maravilhosa vontade de cada cultura encontrar formas diferentes de transcender a matéria.
Apesar da facilidade de distração proporcionada pelos cinco sentidos que nos proporcionam uma falsa realidade, sempre tive uma desconfiança interna, uma espécie de intuição de que a vida não é só o que os olhos possam enxergar ou o que o corpo pode sentir, saborear, tatear e cheirar.
Intuitivamente pressinto que existe “algo” divino e fantástico, acontecendo que faz com que uma semente nasça para dar o algodão do tecido, que as ervas se combinem para criar o perfume, que a água vá contra a lei da gravidade subindo o caule do coqueiro para preencher o coco de sais minerais, que a árvore tire da terra o fruto, a madeira e a flor. É indiscutível que existe uma inteligência superior por traz desses milagres corriqueiros que assistimos diariamente, Cada povo tem seu modo próprio de buscar as respostas e encontrar a verdade.
Na organização de Sathya Sai Baba, cujo Centro Original é em um vilarejo do interior de Bangalore, chegam milhares de pessoas do mundo inteiro. É um encontro de vários idiomas e raças em comunhão espiritual. Diariamente tem rituais de manhã e de tarde nos quais o Sai Baba aparece atualmente em uma cadeira de roda para abençoar seus devotos. Desde quatro horas da manhã já começa a fila para conseguir um lugar mais próximo ao Sathya Sai. Acredita-se que tudo que ele olha se transforma. Realmente dentro do salão com capacidade para cinco mil pessoas, quando Sathya Sai entra corre uma energia diferente – uns derramam lágrimas, brilhantes feito líquido, outros, esboçam um sorriso alegre como as flores dos campos, e um sol se faz presente em cada olhar!
Sathya SaiBaba caminha por entre os presentes e como um vento suave refresca o coração e brota uma vontade de regozijar e cantar. Um festival doce, uma festa interna imperturbável e deliciosa. A paz adquire o formato de lírios caindo do céu aos nossos pés suavizando a existência de tudo que cresce. Este momento é uma dádiva.
Ao contrário do que acontece nos países que sustentam o sistema monoliticamente piramidal em que para manter o povo submisso se recomenda criar um estado de “ansiedade psicológica” uma espécie da “posse da mente através da frustração”.
No entanto, no Ashram é como se o pensamento parasse e o espaço mental fosse todo ocupado por uma suave, penetrante e abrangente sensação de completitude. Não há desejos para alimentar a ansiedade, nem interesses para inquietar os braços. Fica-se parado só respirando para sentir a força dos rios e da natureza com o seu poder incomensurável. É só isto...e isto é TUDO. É se transformar em nada para permitir se preencher.
Analisando agora não como sujeito e sim como observador da experiência, fico pensando se o estado de bem estar tem um sentido em si mesmo. Vi pessoas que param no “bem estar” e todos os anos voltam ao local para se preencher da mesma experiência e desta forma entram numa espécie de ciclo vicioso dependente de um estado e passam a comprar o escapulário, o santinho, o anel com a foto, a camiseta, o cd, o perfume para ter um estímulo externo que operará como o disparador de um estado interno. Viciam em estimular o aparelho sensório. Vejo também como uma prisão embora mais confortável. Fica-se escravo de estar sempre se sentindo bem...e daí? Será que sentir-se bem é a finalidade de uma vida? Decerto que tem algo mais. Existe uma função, uma razão maior para a vida de cada um. Eu não sei qual é. Talvez observando a natureza se possa encontrar alguma resposta. A natureza, silenciosa professora e de uma inigualável metodologia, é cheia de exemplos para ensinar que o processo evolucionário requer o esforço. Penso que a evolução não é o resultado de quem quer só se sentir bem. A dor da borboleta saindo da lagarta, limpa as asas e as prepara para o vôo.
Na natureza há uma razão para tudo. A abelha faz seu trabalho para no fim não usufruir do mel que fabricou. Desapega-se e alimenta-se da própria missão. Os heróis quando cumprem sua missão ficam com cara de gozo, ou melhor de êxtase. Tive alguns raros momentos de êxtase, e posso descrevê-lo como se fosse um estado de experiência máxima. Acima de se sentir bem, um estado de experiência máxima é estar tão concentrado e envolvido em uma atividade que se perde a noção de tempo e tudo é presente, aqui e agora. Estes momentos de total integração acontecem mais em situações de alto desafio, de alta pressão, momentos de vida ou morte do que de “bem estar”. Nenhuma massagem, perfume e banho morno pode se comparar a sensação de capacidade de vencer um desafio. Ninguém vive um estado de êxtase sentado no sofá de casa, assistindo novela da TV. Atualmente entro num estado de alta satisfação quando consigo vencer, em uma festa, o convite de comer um brigadeiro (estou me referindo aquele docinho de chocolate com leite moça). Quando domino os pedidos da língua e sinto ter conquistado dentro de mim algo mais doce do que o açúcar pode trazer. Uma satisfação de domínio próprio em detrimento do prazer da língua, um mero desejo do corpo. Quando entro em contato com a capacidade de auto-superação gera um contentamento psicológico de expansão do meu próprio self. O meu self expandiu e me tornei um ser humano mais complexo. Por outro lado isto significa que vou ter que errar, testar, me responsabilizar e isto dá trabalho. Ser humano dá trabalho e a maioria das pessoas quer comprar pronto na loja do térreo do primeiro shopping que encontrar ao virar a esquina.
Estudei sobre um conceito criado por um psicólogo húngaro,PhD chamado Mihaly Csikszentimihalyi (pronuncia Tiquisemiraí) que pesquisou durante duas décadas os estados de “Optimal Experience”. Mihaly que veio da aristocracia, era um príncipe e o seu interesse era saber como as pessoas fazem para ter momentos de experiência máxima. Como a pessoa pode gerar um estado onde ela está totalmente focada no momento presente. O que faz com que uma experiência se torne altamente agradável é o estado de flow – fluir que é um estado de concentração tão centrado que a pessoa fica totalmente envolvida na atividade. De tal forma que o resto que está acontecendo não interessa. É parecido com aquele conceito budista de ser “Um” com o “Todo”, isto é de ser um com a experiência. Então Mihaly foi buscar os exemplos de quais momentos o ser humano consegue ter estes estados de êxtase. Ele se perguntou se as pessoas só conseguem ter este êxtase em situações de meditação espiritual? Ou de tranqüilidade? Percebeu que existem outros momentos em que o ser humano está totalmente envolvido com a experiência. São momentos em que está fazendo alguma coisa onde a sensação do mundo externo diminui e fica-se só envolvido naquilo que está fazendo e esquece o tempo, esquece de comer, de beber e de dormir. Isto acontece no corpo do desportista, ou da bailarina ou do músico tocando um instrumento. Este estado também pode acontecer com os pensamentos quando se está lendo um bom livro ou tendo diálogos profundos sobre idéias. Ou durante trabalhos que são desafiadores e também artistas no processo criativo.
Nestes momentos de experiência máxima o ser humano sente que tem o controle de suas próprias ações, que são donos de seu destino, o que dá uma sensação profunda mais de satisfação psicológica do que de prazer biológico. A satisfação pode ser resgatada com a memória e são lembrados por muito tempo, enquanto o prazer é momentâneo, efêmero e passageiro. Pessoas que tem poucos momentos de satisfação precisam compensar com muitos momentos de prazer fugaz.
Mihaly percebeu que quanto mais as pessoas tem capacidade de ficar totalmente no presente mais tem condições de ter qualidade de vida e maior é o grau de satisfação. Qualidade de vida não está ligada a prazeres fugazes nem a poder, nem a nada externo a si, e sim a capacidade do ser humano de buscar atividades que lhe coloquem em desafio às vezes até em condições externas desfavoráveis. Acho que é por esta razão que gosto de cultivar um espírito aventureiro e não curto muito momentos de descanso e segurança. Fui para uma praia de golfinhos em Natal e no terceiro dia, já estava querendo matar aquele golfinho que passava o tempo todo indo de um lado para o outro sem acontecer nada de interessante. Se me perguntarem agora, quais os momentos de minha vida que foram mais memoráveis e inesquecíveis? Invariavelmente irei me lembrar do momento em que consegui sobreviver debaixo do Viaduto do Chá em São Paulo, apesar da fome e do frio. Outro momento de glória foi o instante em que consegui não dá combustível a um hábito ruim.
Vibrei ao conseguir fechar uma negociação muito difícil. Vitória maior foi ter conseguido passar no concurso público estudando embaixo do poste da rua por falta de luz elétrica na casa da favela em que morava. Meus momentos de êxtase aconteceram quando consegui vencer o orgulho e pedir perdão. Outro momento de vitória foi quando consegui superar o pavor mesmo estando pressa no elevador. Lembro-me com muita satisfação do momento em que ainda adolescente tive energia para correr de policiais e consegui me esconder atrás do monumento da praça da Lagoinha, na época em que era ativista no Colégio Liceu do Ceará no movimento contra a ditadura quando o Jarbas Passarinho era ministro da educação. Consegui um estado de superação no momento de conquista em que eu disciplinei minha mente para focá-la em um ponto, ou quando escalei a serra de Baturité apesar de todas as adversidades contrárias.
Estes sim são momentos memoráveis, momentos de bons combates! Situações em que o corpo ou mente estavam completamente empenhados num esforço voluntário para realizar algo que vale a pena. Uma experiência máxima é algo que fazemos acontecer e não o que nos acontece. Quando acontecem estes momentos, nem sempre são agradáveis, como o atleta que sente os músculos esgotados durante uma prova, mas não vê a hora de participar dela de novo. Estes momentos são memoráveis porque trazem uma sensação de domínio, de controle sobre a vida. Se os momentos memoráveis são de desafio, quanto mais desafio a pessoa tem, maior a probabilidade de gerar estados reais de qualidade de vida. Desta forma tenho um encontro marcado com o Indiana Jones para combinar achar um tesouro perdido no fim da Patagônia.
Putaparthi 15 de janeiro – terça
Hoje, ao descer para o térreo, o gerente do Hotel de chapéu branco tipo um vaso emborcado na cabeça estava ajoelhado em frente a um côcô de vaca com uma vela acessa no centro, em perfeita adoração.
Pedi permissão para bater a foto do côcô da vaca que estava no centro de um lindo desenho de flores coloridas. Além da vela acessa havia um coco quebrado no meio, como que uma oferenda enfeitada com galhinhos verdes cuidadosamente arrumados com um toque feminino.
Caminhar de manhã até o templo para rezar tem sido minha rotina. Meu querido avô ficaria orgulhoso de mim. No caminho homens com seus fraldões brancos contrastando com sua tez escura e cabelos lisos e negros, me cumprimentam com um Namastê que significa O Deus que está em mim, também está em você”. Alguns sentados no chão com as pernas cruzadas desde a hora que eu vou, até a hora que eu volto. O mais marcante é a profundidade do olhar. Olham de verdade e fixam-se no que estão vendo. E fica a curiosidade em saber o que será que eles estão vendo?
A manhã é sempre fresca, mas a tarde é seca e haja creme para manter a pele hidratada. Parei para comprar um saquinho de amendoim. Paguei, guardei o troco sem conferir, agradeci com as mãos unidas perto do coração – como é de costume e, ao me afastar, abri o saquinho e coloquei uma quantidade que cabe na palma da mão e levei até a boca. Pasmem! O amendoim é temperado com pimenta. Engasguei e cuspi da forma mais sem classe que você possa imaginar. Busquei uma garrafa de água na falta de uma banana verde. Vou levar o pacote de amendoins apimentados para o Brasil pois tenho uma idéias interessantes do que fazer com ele.
Estou muito satisfeita em ter a liberdade de escolher o que fazer, hoje, por exemplo, decidi não fazer nada. Junto com o grupo da excursão existe uma necessidade de ficar se ajustando aos demais. Sozinha faço as caminhadas cada dia para um lugar diferente, registrando os momentos exóticos e as experiências pessoais, parando e continuando a caminhada dentro do meu próprio ritmo.
Estar hospedada no Hotel e ter um espaço só meu, ainda é uma condição básica para organizar umas coisas na mente. Gosto de arrumar o meu quarto separando o que é material de limpeza de pele, de pintura, roupas usadas, roupas de dormir, roupas para sair, documentos importantes, cadernos de anotação, presentes, tudo em seu devido lugar de tal forma que quando eu quero, sei onde buscar. Se eu estivesse com o grupo estaria tudo embolado e misturado pois o espaço era pouco. Estou percebendo que eu ando ocupando muito espaço.
Da mesma forma que arrumo os objetos fora ando arrumando os pensamentos dentro da cabeça, cada um, no lugar certo, para ser utilizado na ocasião certa. Quando é necessário sentir algo sei exatamente em que departamento, armário, gaveta ou prateleira da mente ele se encontra. A organização em todos os sentidos (dentro e fora) é básica para minha eficiência. Meu desafio é conseguir a organização dentro do caos com tudo desarrumado e mesmo assim eu ficar centrada e calma. Mas irei me empenhar cm conseguir estar no meu eixo quando na periferia a bagunça está reinando. Se os indianos podem, eu também posso. Este será o meu desafio de agora em diante.
Meu organismo já está mais habituado com a diferença de horário. Hábitos são fáceis de serem adquiridos se fizermos com certa repetição por algum tempo. Diz um psiquiatra no livro O erro de Descartes que o cérebro aprende por repetição e velocidade. Já faz parte da minha rotina acordar em absoluto silêncio, fazer os alongamentos, tomar um banho frio e me vestir, ou melhor, me embrulhar com uma porção de panos e em jejum caminhar até o templo de orações para ficar numa fila enorme esperando a chegada do Avatar.
Se alguém me perguntar agora: - O que Indiano faz? Eu respondo imediatamente: - Faz fila. Hoje de manhã resolvi fazer um passeio na praça que fica em frente à biblioteca para comprar uns livros do Vivekananda – um iogue muito famoso. Vi uma grande fila e perguntei se era para entrar na biblioteca, pelo que o individuo não soube responder. Ele simplesmente viu a fila e estava nela para arriscar. Assim como brasileiro passa na Loteria e faz uma fezinha, de repente vai que acerta.
Disse-me o indiano, com dentes muito brancos que estava passando e viu a fila, mas se eu quisesse entrar deveria procurar uma fila só para mulheres. Agradeci e não procurei entender de onde vem tanta paciência. Ainda sem resposta entrei na fila para comprar um pão, depois entrei na fila do café, nesta ordem para não esfriar. Mais tarde teria de entrar na fila do almoço. Tem fila para guardar os pertences. Tem fila para apanhar os pertences. Tem fila para pegar o papel higiênico. Tem fila para entrar no banheiro. Tem fila para lavar a mão, e de noite eu imagino que estou na fila para dormir e antes de chegar a minha vez, eu não consigo esperar e adormeço, furando a fila.
No discurso do Sai baba, ele diz que o homem de hoje dissipa a sua vida completamente preocupado com os assuntos mundanos. Devido ao apego aos corpos ele se esquece da sua Natureza Verdadeira, fica imerso nos assuntos mundanos e envolve-se na miséria. O homem atual, em sua maioria, considera o corpo como permanente e faz dos confortos físicos a sua meta na vida. Essas são as coisas que todo indivíduo experimenta na sua vida diária. Se uma pessoa se aproxima de um individuo e lhe pergunta: “Quem é você”? Dada a identificação com o corpo, a pessoa dá o “nome” em resposta. É comum também, em virtude da identificação com o que se faz, dizer que se é “médico”, “agricultor” ou “estudante”.
Tem identificações com o lugar de nascimento, e a pessoa responde “eu sou brasileiro”, “americano”, “indiano” ou “paquistanês” e assim por diante. Quando se examinam essas respostas profundamente, nota-se que nenhuma delas corresponde a verdade. O nome é adquirido através dos pais. O nome não nos pertencia quando nascemos. A identificação com a profissão não é verdade porque não se é a profissão. Qual é, então, a resposta ? Os indianos dizem “Eu sou o Atman” – que é o nome dado a essência divina. Alguns dizem simplesmente “Eu sou”
Estas respostas dizem respeito a dimensões atemporais enquanto os que se identificam com os seus nomes, profissões e nacionalidades, endereço, e-mail e número telefônico, tem uma duração similar ao cartão de visitas com dados de identificação externa. Vai existir uma época que todas as referências externas irão desaparecer. Até o corpo que é mero veículo será dissolvido e então, o que fica?
Essa verdade é ressaltada com ênfase por Sai Baba em seu discurso. A maioria das pessoas fica pensando e olhando para o edifício sem se importar se tem bom alicerce. Desta forma o edifício inteiro pode ruir a qualquer momento se os alicerces forem fracos. O ideal é dar atenção as raízes. O fundamento invisível é a base da mansão visível. As raízes invisíveis são a base da árvore visível. Da mesma maneira, a força vital invisível é a base do corpo visível. O prana – força vital não tem nenhuma forma, enquanto o corpo tem uma forma. Existe, porém, o princípio atmico que confere todas as potencialidades à força vital – prana. Devido ao poder conferido pelo Atma, a força vital pode ativar o corpo. O corpo é inerentemente inerte. Ele é constituído por diferentes tipos de substâncias materiais ativado por uma energia. Quando a energia se libera para outra dimensão, o corpo morre e vira somente um monte de carne perecível. O corpo é só veículo. Pode o motorista se confundir com o carro que dirige?
Putaparthi 16 de janeiro de 2008 – quarta-feira
Hoje ao sair do Hotel deixei a serva limpando o quarto. Ela usava uma vassoura tipo espanador grande e o ato de varrer é feito com os joelhos no chão. Como é dura a vida das ajudantes na Índia. Estou valorizando mais os trabalhos braçais, já que todos os dias fico acocorada em um tanque baixo para lavar as roupas. Ainda bem que o fato de fazer pilates me proporciona a flexibilidade corporal necessária para encontrar conforto na posição. Tudo é uma questão de aprender a técnica. Aqui na Índia o meu bidê é um balde grande com outro pequeno. Usem a sua imaginação, pois eu não vou me dar ao dissabor de descrever a ginástica que eu faço para conseguir lavar meus “países baixos”. O caminho da vida espiritual é simples sem luxo, mas eu estou morrendo de saudade do meu bidê, da máquina de lavar e secar e do secador de cabelo.
Meu quarto na Índia é pequeno, claro, arejado e silencioso. Tenho as condições perfeitas para viajar nas viagens. E apesar de estar sozinha não sinto solidão. Cada vez mais a necessidade de refletir vem me alimentando e venho sentindo uma grande satisfação em ter liberdade de ser o que surge no silêncio quando fecho a porta do quarto e só existe eu me olhando.
Atualmente só faço duas refeições por dia. Epicuro, filosofo grego de 300 A.C ensinava que o resultado prazeroso de uma ação sempre deve ser ponderado em relação a seus eventuais efeitos colaterais. Se você já comeu chocolate demais, então entende o que digo. Com o dinheiro que sobra da comida, aluguei uma bicicleta e resolvi conhecer o local. A quantidade de pano da vestimenta atrapalha um pouco e comecei a rir pensando na reação dos indianos se me vissem andando na beira mar com meu short colado e meu bustiê mínimo. Andando assim aqui na índia, no mínimo levaria umas pedradas por atentado ao pudor. Voltando a opção de ter trocado o jantar pela bicicleta, afinal somos humanos também por possuir a capacidade de discernir e escolher e “calcular o prazer”. Epicuro também enfatizava que felicidade não significa necessariamente atender os impulsos e nem se deixar levar pelas experiências dos sentidos. Aqui também cabe o exemplo do chocolate cujo prazer é passageiro e o efeito colateral é longo. Fazer amigos e admirar uma obra de arte também podem ser atividades que tragam uma grande satisfação. Na Índia, o prazer cultuado é a satisfação de ter o autocontrole, a temperança e a serenidade. Eu preciso mais desses três do que de chocolate.
Por sinal, o rapaz indiano bigodudo da cantina não se altera qualquer que seja o tamanho que a fila esteja. Quando a pessoa chega na vez de ser atendida, ele olha profundamente e pergunta o que a pessoa quer. Calmamente se vira para a máquina de café e faz pausadamente a mistura do leite e açúcar. Coloca tranquilamente o copo embaixo da máquina e vagarosamente aperta o botão da água quente. Sorri quando a água cai e ritualisticamente entrega o copo esfumaçando.
Ainda mais lentamente passa o troco. Ele não tem pressa e atende a cada um como se fosse o único e não tivesse ninguém esperando na fila. No meu ritmo enquanto ele atende um, eu já tinha servindo umas sete pessoas e colocaria uma ajudante para receber o dinheiro e ser mais rápida, tipo atendente do Mac Donald, que clica ligeiro o número da comida que você quer e passa o troco sem olhar para o cliente , dizendo apressadamente “O próximo”. A pressa é o modelo do atendimento ocidental, onde a gentileza fica perdida ou é uma vaga lembrança.
Os cantos devocionais são feitos com o devoto em jejum. O fato de ter abolido o jantar me deixa ainda com mais fome na parte da manhã. E assim resolvi tomar café em um quiosque do lado de fora do restaurante. No restaurante pode-se tomar café sentada por esta razão a fila ainda é maior. Já me sinto mais conformada e até procurando filas. No quiosque, do lado de fora, existe a opção de tomar o café sentada em um fio de pedra que emoldura o jardim. Depois de cerca de uma hora, em pé, numa fila quilométrica, consegui ser atendida e pedi um café duplo e um pão reforçado. Coloquei o copo queimando os meus dedos, de um lado da pedra na qual iria me sentar e o saco com o pedaço de pão do outro. Olhei para o meu “breakfast” e sentindo o gosto do pão com cury e do café quente me sentei no meio da pedra. Quase não acreditava que eu estava perto de colocar um alimento quente no estomago, quando me aparece um cachorro magro e perebento, com olhos de pedinte esfomeado feito cearense em época de seca. Afinal aquele pobre cachorro também era um ser divino.
Lembrei-me da minha cachorra e resolvi adoçar meu coração, afinal eu estou no caminho espiritual. Com o coração repleto de generosidade, caí na besteira de repartir um pedaço de pão com aquele ser vivente. Neste momento, não sei de onde, apareceram outros cachorros, soltei o pão com o susto que levei e derrubei o copo com meu delicioso café tão ardentemente desejado. Minha generosidade com os animais me custou mais duas horas de fila. Respirei fundo, entrei em contato com o Atman dentro de mim, ou me expressando melhor com atman que eu sou, afinal eu estou no caminho espiritual, então entrei na fila até que na minha vez, toda a comida havia acabado e só tinha chá. Tive vontade de pegar uma pedra e sair correndo atrás do cachorro perebento. Se eu me encontro de novo com aquele cachorro e estiver de carro, passo por cima dele e não tem Atman que me segure. Eu havia chegado ao meu limite. Vou precisar rezar muito para perdoar aquele cão traidor e o seu bando saqueador. Vai e volta a imagem daquele cachorro “filho de uma égua” toma conta da na minha cabeça. Perdi a inspiração em ser um ponto de luz e a vingança tomou conta de mim. Meu caminho espiritual ainda é muito frágil porque até um cão consegue me tirar do foco. Sim, porque agora meu foco é matar o desgraçado.
Putaparthi 17 de janeiro – quinta
Nada melhor que um dia atrás do outro e uma noite no meio para amenizar o coração e voltar ao eixo, para tomar minhas decisões a partir do meu centro. Na falta do que fazer, fui rezar e Sai Bba diz que tudo tem a luz divina, mas eu só consigo ver as trevas naquele cachorro. Perdoá-lo só se acontecer um milagre. Por sinal, ainda não presenciei nenhum milagre de Sai Baba, mas acho fantástico um homem de pele escura e olhos negros com apenas um metro e meio e uns cinqüenta quilos, de cabelo black power com um tubinho cumprido alaranjado, conseguir reunir diariamente, de manhã e de tarde, tantas pessoas de diferentes países do mundo inteiro em torno dos seus pensamentos. É de fazer inveja a qualquer Pop Star. Tem pessoas que atravessam continentes só para vê-lo esboçar um pequeno sorriso ou dar um aceno de mão. Lá no Brasil a Ivete Sangalo dá o sangue, requebra as cadeiras, revira os olhinhos e diz que é filha de São Salvador para conseguir o entusiasmo da galera. Tendo em vista a grande quantidade de devotos aumentando a cada ano, estão construindo as estradas e melhorando a estrutura da cidade para receber os indianos e estrangeiros que chegam diariamente.
Confesso que o espírito de religiosidade é contagiante, mas eu mesma ainda não consegui uma experiência mística pura – isto é, sentir-me uma com o UNO. Já ouvi uma descrição de um místico cristão Ângelus Silesus que escreveu sua experiência com Deus da seguinte forma: “A pequena gota se transforma em mar quando chega até ele, e assim a alma se transforma em Deus quando é nele acolhida”. Intelectualmente consigo entender mas viver a unicidade requer uma limpeza de coração.
Outra forma de expressão que induz uma reflexão é uma pergunta no filme Sansara “ Como fazer para que uma gota de água nunca evapore?” E no final do filme, aparece a resposta: “- Devolvendo-a ao oceano”. Com esta metáfora é mais fácil entender a inutilidade do isolamento já que separados do oceano corremos o risco de desaparecer. Agora começo a entender melhor a filósofa e escritora Blavatsky, em seu livro a Doutrina Secreta quando fala da ilusão da Separatividade. Eu entendo mas não aceitarei jamais estar unida aquele cachorro e seu bando safado. Por mim ele irá morrer desidratado ardendo no fogo dos infernos.
Putaparthi 18 de janeiro – sexta
O tempo também obra milagres e passados alguns dias a raiva (especificamente do cachorro perebento) vai perdendo a força principalmente quando desviamos o foco para o que é importante. É improdutivo dar combustível a pensamentos de ódio e vingança. O que há de mais importante do que se religar com o divino? Um místico indiano descreve a experiência de fusão com o Uno da seguinte forma: “Quando eu era Deus não era; e agora Deus é, e eu não sou” Esta experiência não é fácil porque implica em abdicar dos apegos aos quais se está identificado. A identificação com o que está escrito no cartão de apresentação é um armadilha invisível e perigosa. Acho que, no meu caso, fazer a entrega total não é fácil. “Fundir-se com o Uno” não consigo nem imaginar o que seja mesmo porque é indizível e inimaginável.
Tenho investido atenção para descobrir as respostas. E quando encontrá-las vivenciá-las, incorporá-las no dia-a-dia. Talvez a segunda parte seja a mais importante. Eu mesma fiz uma porção de cursos de autoconhecimento, Programação Neurolingüística, Coaching, Biopsicologia, Hipnose, Filosofia e me sinto com muita informação sem conseguir vivenciar quase nada. Não consegui me unir direito nem com minha sócia quanto mais com o Divino que deve ser mais criterioso do que ela. Saber menos e praticar um pouco do que se sabe talvez traga mais resultado. A exigência de fazer a conexão do conhecimento com as mãos para transformar o ideal em atos, é o que torna o caminho espiritual tão estreito. Do contrário cria-se a vaidade do pseudo-conhecimento das verdades. Em várias aspectos tenho muito o que me melhorar. Observando a generosidade da natureza meu caminho é longo. Ainda não consigo fazer algo com a mais pura intenção e total desapego.
Ainda estou no velho padrão da crítica e do interesse. Ainda tenho um coração impuro que teima em se vingar daquele cachorro antes de fazer a fusão com Uno e ser só perdão. Do jeito que eu me percebo agora, só melhoro com a morte, quando terei entregar tudo, de um jeito ou de outro. A morte, dizia Epicuro, é fácil de aceitá-la, pois “Enquanto somos, a morte não existe, e quando ela passa a existir, nós deixamos de ser” . O tempo muito mais que a morte vem buscar de volta tudo que nos deu nos primeiros anos. Nunca vi nenhum cadáver reclamando de sua condição de vivo, mas já vi muita gente triste ao olhar no espelho e se dar conta dos estragos feitos pelo tempo.
De vez em quando encontro pelas ruas do Ashram, apinhadas de gente, alguém do grupo do Brasil e já se nota uma certa aculturação – cada um de nós está querendo , cada vez mais, se parecer com os indianos, na forma de andar e se cumprimentar.
A cada dia acumulo um aprendizado. Logo que comecei a freqüentar o templo de orações, quando da saída da sala, junto com uma multidão de devotos, passava horas procurando as sandálias cujos pés sempre estavam em lugares opostos debaixo de 3 mil outras sandálias. Agora eu aprendi a colocar o meu par de sandálias em um saco preto enrolado a uma fita verde e amarela. Desta forma demoro somente, de quinze a vinte minutos para encontrar. Meu objetivo é melhorar a performance para cinco minutos. Para tudo tem uma técnica – um jeito de fazer melhor! Estou me desafiando.
Nossos hábitos ocidentais em abraçar as pessoas publicamente não são bem aceitos. Na Índia reserva-se o contato físico para alguém muito intimo. Na intimidade, pela quantidade de criança que nasce, eu tenho a certeza que o contato físico existe. Quando se vê nas ruas pessoas dando beijinhos uma nas outras, pegando nas mãos, rindo à toa, já se sabe que é brasileiro. Indianos não fazem gestos supérfluos. Cumprimentam baixando a cabeça e unindo as mãos na altura do coração. Semblante sem expressar muitas emoções até porque não constroem dentro de si.
Mexendo na bolsa para encontrar o baton, descobri que trouxe o controle remoto do portão da garagem lá de casa. Veja só, mesmo distante quero ter o controle de casa. Às vezes sinto uma certa sensação de poder quando estou com um controle remoto nas mãos. Estou dentro da Índia mas muito longe da iluminação.
Putaparthi 19 de janeiro – sábado
Acordei de manhã com uma sensação de que eu posso ser feliz apesar de um cachorro perebento e seu bando esfomeado. Quando a existência Divina lhe diz “Seja Feliz” não está expressando um desejo com a esperança que você o cumpra. Está sim dando uma ordem. É um grande erro dizer que a felicidade é algo que acontece e não algo que se possa procurar. A felicidade é uma escolha consciente, assim como o amor. O que acontece é que os seres humanos desconhecem suas verdadeiras possibilidades e acreditam que são bonecos manipulados por um destino inexorável e arbitrário, diante do qual só lhes resta a aceitação. Isto não é assim de maneira alguma! Sua felicidade depende do quanto se empenha para alcançá-la, porque a experiência exterior em nada interfere na sua permanência. É o pensamento correto, a prática da ética e o alinhamento com a missão que produz a felicidade. E pensar correto, ser ético e cumprir a missão é um assunto pessoal, e não depende de nada exterior.
A pergunta O passarinho canta porque é feliz, ou é feliz porque canta? deixa a mente em estado de transe. Geralmente se espera algo fora para poder cantar. E a felicidade é uma atitude interna para que algo aconteça fora. No mundo corporativo podemos substituir pela pergunta Devo estar bem para produzir ou produzir para estar bem? O que se tem que fazer para ter o estado que se quer? Madre Tereza estava iluminada quando disse Seja a mudança que você quer ver no mundo. É simples mas não é fácil.
Enquanto não consigo tornar o aprendizado intelectual uma realidade somática, estou me especializando na linguagem dos gestos. Às vezes brinco e começo a balbuciar palavras imitando a maneira hindu de falar e quando eles percebem a brincadeira esboçam um sorriso. O humor possibilita uma aproximação seja lá em que país for. Às vezes olho para eles e digo uma porção de idiotices e impropriedades. Como eles não sabem o que estou dizendo olham para mim como se eu fosse louca – o que estão cobertos de razão. Engraçado mesmo é escrever tudo o que me acontece. É uma diversão ver o lápis preto deslizar e deixar as marcas das experiências no papel branco, e as memórias se derramando em palavras, que se juntam formando um sentido para quem for ler. O mais interessante é que o escritor passa a não ser mais dono do sentido da sua escrita. O leitor tem a liberdade de dar o sentido que mais lhe aprouver. E assim eu não sei o que vai acontecer quando eu tiro palavras de mim e coloco no mundo da mente do leitor. Uma explosão de considerações se formam quando acontece o encontro.
O sentido profundo da vida é a grande busca. Não dá mais para ficar nos movimentos supérfluos, nas aparências dos sentidos fazendo mimos para viciar cada vez mais o corpo ao conforto e a preguiça. O sentido maior da vida precisa ser encontrado onde quer que esteja e a toda hora, no detalhe ou no abrangente. Assim vive a Índia, e o que mais me encanta, é a maneira ritualista com que se fazem os atos. Há toda uma concentração e um sentido para cada ação. No Brasil, o foco é “quem vai para o paredão do oitavo Big Brother”. É muita alienação de quem não se dá conta nem da sua própria historia, e fica espiando a história dos outros. Qual o sentido que isto tem? Esta distração leva a que?
A falta de um sentido maior e da ligação com o lado simbólico, leva o ocidental a ficar solto ou perdido em buscas periféricas longe do eixo. Tudo aqui no Oriente, tem um símbolo e um sentido. Todos os animais são muito respeitados pelo símbolo que representam. O elefante por exemplo, significa sabedoria. Seus olhos pequenos representam a pouca importância que se deve dar ao que a visão física pode captar. Para que olhos grandes, se os reais valores não podem ser captados com os olhos físicos? Elefantes têm grande memória para recordar a centelha divina que habita em todos os seres. Suas grandes orelhas escutam a voz do coração, e quando ouvem o chamado do seu bando, obedecem com passos firmes derrubando os obstáculos na floresta. No entanto mesmo sendo paquidermes são delicados a ponto de não pisar em um formigueiro. São capazes de pegar uma rosa sem machucá-la. E o mundo é repleto de símbolos para os olhos de quem consegue ver.
A maioria na Índia é vegetariana, o que deixa a pessoa ainda mais sutil. A descoberta que a pimenta é usada na Índia como vermífugo, me fez optar em comer especialidades indianas para me arrepender, amargamente desta infeliz decisão, quando da primeira mordida em um bolinho parecido com um acarajé, todo cheio de óleo com muita pimenta e sem camarão. Horrível. Melhor tomar óleo de fígado de bacalhau. Aqui, na Índia tem muitas formas de alimentar a alma, mas quando se trata de nutrir o corpo, a comida deixa muito a desejar. Resolvi procurar um restaurante de um Hotel de Luxo e por não entender o cardápio, fui na sorte. O que mais me incomodou foi quando chegou o prato é que o garfo e a faca não veio junto. Come-se com a mão até em lugares luxuosos. Nas outras mesas as pessoas chegam a usar a própria mão para servir a comida no prato do outro. Não aceito este costume e insisti em receber os talheres e como o garçom não entendia a língua portuguesa disse-lhe uma porção de impropriedades como se elogios fossem.
Uma colega que me fez companhia na aventura gastronômica ria tanto que não conseguia comer quando eu dizia em alto e bom tom que “eles eram um bando de porcos imundos” ou “uns nojentos de bigode”. Aos olhos reprovadores de todos os presentes, peguei o garfo e a faca para levar a comida à boca. No entanto me veio na memória a cena de quando vou comer caranguejo nas barracas de praia e me lambuzo toda e uso as mãos para colocar a farinha dentro da casquinha e fico toda melada.... e é tão bom.
Na Índia tem costumes que não são higiênicos. O fato de a vaca ser endeusada não torna o seu coco cheiroso. O côcô da vaca mesmo ela sendo sagrada, também fede. A prova disso é que além das velas, incensos são colocados para melhorar o odor. Eu foquei minha atenção no cheiro ruim e os indianos focam no símbolo de fertilidade. Eles escolheram o melhor lado. O foco que damos muda o objeto.
Andando pelo comércio, a atenção é em desviar dos excrementos dos animais, porém fica-se tranqüilo no que diz respeito a roubos. Mesmo que a quantidade de pessoas pobres seja de 350 milhões, atual população do Brasil, não se precisa esconder a bolsa ou máquina fotográfica. Deixam-se os sapatos do lado de fora da loja, na certeza de que os mendigos vão aguardar pacientemente você sair do estabelecimento, para receber algo que lhe será dado de coração. É a crença no carma – toda a ação tem uma reação na natureza - que os faz temerosos em se apossar de algo que não lhes é oferecido. Uns temem o carma outros simplesmente obedecem as leis espirituais. Por outro lado Sai Baba recomenda que não se deve dar esmolas a fim de não alimentar o pedinte oficial. No máximo podemos doar alimentos, pelo que as mulheres do Ashram fazem um sopão que é oferecido aos pobres, no final do dia para que eles durmam aquecidos.
O fato de deixar os sapatos na porta de entrada é também um gesto de respeito à energia do local que vai nos acolher. A energia de cada ambiente deve ser preservada e não contaminada pelo que se traz da rua. A “sujeira energética” fica do lado de fora. Quanto de sujeira deve-se deixar de lado quando se vai encontrar com o outro? Já pensou se além do banho do corpo, a mente fosse lavada e perfumada?
Na porta de todas as lojas da cidade tem a foto de Sai baba. Talvez assim como eu, vocês achem que é bobagem ficar endeusando uma pessoa e colocando a foto dela em todos os lugares. Mas vamos raciocinar juntos. Imaginem que vocês morassem em uma cidade pobre do interior sem água e nenhuma estrutura. Então uma pessoa que não pede voto, não cobra impostos, não quer salário, não quer empregar amigos e não pede favores, comece a criar um projeto de irrigação, e sem lhe pedir nenhum dinheiro constrói um sistema de distribuição de água encanada para toda a cidade. Além do mais, monta um hospital gratuito, um asilo, várias creches, escolas primárias e faculdades. E tem mais, ainda inaugura um centro para estudo de música e outro centro esportivo. Tudo isto no mármore, climatizado e com o que há de mais moderno no mundo.
Além disso tudo, ainda aumenta o comércio e o turismo com entrada de dólar na região. Para os pobres, distribui cobertores e alimentos. Outro detalhe: Tudo de graça. Você também não colocaria a foto deste homem em lugar de destaque? Imagina se cada cidade do interior do Brasil tivesse um homem desses, como seria?
A presença de Sathya Sai nos lugares de oração é permeada por grande energia amorosa. Independente da crença que se tenha, o poder deste homem é incontestável. O que alguns chamam de milagre, a física quântica explica que o conhecimento da natureza das substâncias, possibilita a mente alterar a composição no mundo físico. Jesus transformou água em vinho. O fato de não sabermos como se faz não significa dizer que não é possível. Acredito que com base em leis que desconheço acontecem as materializações de objetos. É melhor respeitar o que não se conhece, ainda.
Na frente de cinco mil pessoas, Sai Baba levantou o braço, e depois de fazer com as mãos dois círculos completos, entregou um colar de ouro para ofertar a uma adolescente Indiana que cantou uma canção em sua homenagem. Os mais avançados estudos da física quântica mostram e comprovam que a matéria é feita de “nada” e que a mente humana tem o poder de usar sua força para interferir nos campos mórficos. O que se pensa que é milagre pode ser ausência de conhecimento.
Embora não tenhamos conhecimento da alquimia que acontece dentro do nosso organismo, naturalmente elaboramos líquidos, por exemplo: quando sentimos medo ou ódio fabricamos adrenalina e contaminamos o organismo. Da mesma forma temos potencialmente a opção de fabricar timoníase que é um liquido (hormônio) gerado pela glândula Timo e que tem a função de aumentar o poder imunológico do corpo. Para que a Timo fabrique mais timoníase e possamos gozar de mais saúde, existem duas maneiras. Na primeira, basta usar as pontas dos dedos para massagear o externo (osso que fica entre os pulmões, na região do coração). A segunda forma é usar o pensamento lembrando de um momento em que se amou ou se foi amado verdadeiramente, por alguém. É tão simples que dói. Cada ser tem condição de elaborar o milagre humano a cada minuto, a cada respiração. E sem se dar conta que se é um mago em potencial, adquire-se uma atitude cética diante de demonstrações de materializações. Mas cada um pode elaborar uma magia interna usando elementos do organismo.
Quantas coisas antigamente impossíveis e absurdas são rotineiras aos nossos olhos hoje? A incapacidade própria não significa que não seja possível para quem sabe. Só questiono a intenção com que as materializações são feitas. O objetivo com que Sai Baba faz as materializações, é para lembrar que cada pessoa é um centro de possibilidade em fazer a principal das magias que a alquimia interna para se transformar em uma pessoa de ouro. Entenda-se pessoa de “ouro” aquela que está vivendo dentro do que Platão conceitua “homem de ouro”.
O coração é uma usina de transformação podendo transformar ódio em amor. Potencialmente capaz de atuar tanto na dimensão interna quanto na externa, cada indivíduo é colhedor dos frutos de suas escolhas. Quem planta abacaxi não colhe amoras. O plantio é opcional, a colheita é obrigatória. Todas as duas dimensões – interna e externa - seguem as mesmas leis. O microcosmo é igual ao macrocosmo. Os átomos se organizam da mesma forma que as constelações estrelares. Do jeito que existem as substâncias químicas do lado de fora, também dentro do sangue, existem todos os metais para elaborarmos o que quisermos. É baseado nesta pressuposição que Sai Baba tira ouro da própria boca. Quando vi o fenômeno pela primeira vez não achei fácil de aceitar. Por um lado não posso negar o que vi juntamente com cinco mil pessoas. Por outro lado, a indagação persiste: - Como é possível fazer isto sem cartolas de mágico, nem fumaças no ar, nem lenços coloridos ou qualquer tipo de truque? Como posso, em perfeita razão, acreditar que um homem pode fabricar pepitas de ouro?
Para sair do impasse, tive que apelar para meu curso de Filosofia, no qual aprendi que Hegel defende uma razão dinâmica, isto é, uma realidade impregnada de opostos e contradições. Complementa Hegel “uma descrição da realidade tem necessariamente de ser cheia de opostos e contradições”.
Para ilustrar, tem uma história de um físico atômico dinamarquês Niels Bohr, que mandou pendurar uma ferradura na porta de sua casa: – Isto é para dar sorte. Todos estranharam tal atitude, pois Niels Bohr podia ser qualquer coisa, menos supersticioso. Um dia recebeu a visita de um amigo que lhe perguntou, se ele acreditava em superstições, pelo que Bohr respondeu: Não, mas me disseram que apesar disso a coisa funciona assim mesmo. Mercedes Soza afirma “Eu não creio em bruxas mas que eles existem, existem”.
Putaparthi, 20 de Janeiro – domingo
Domingo é um dia como qualquer outro com muita gente nas ruas e as lojas abertas. De vez em quando, encontro nas ruas, apinhadas de gente dos lugares mais longínquos, alguém do grupo do Brasil e já se nota uma certa aculturação em cada um. Esta é uma característica bem brasileira. Enquanto os outros povos defendem com unhas e dentes suas raízes, nós nos adaptamos com muita facilidade aos costumes alheios, e absorvemos rapidamente a maneira de ser do outro nos misturando, usando as mesmas roupas e praticando hábitos, gerando uma sintonia e maior aproximação. Temos a imagem de um povo simpático e agradável. E o mais importante, acolhedor.
Irritada com tanto pano para cobrir meu corpo segui o muçulmano de aproximadamente trinta anos com feições bem características de sua raça que explicava o caminho que deveria seguir, falando o idioma português com sotaque hindu. Ao chegarmos à Mesquita apontou ele o dedo para o céu a fim de dizer que as mulheres ficavam na parte de cima. Mesmo sem entender eu obedeci, afinal trata-se de um muçulmano e eles mostram em cada gesto que não estão de brincadeira. Esta mensagem é passada pela fisiologia. Observando os detalhes, o corpo do brasileiro é solto ou seja, faz movimentos leves e variados sem que esteja pensando sobre eles. É como se a cabeça estivesse em um lugar e o corpo em outroa.. A impressão é como se o corpo ao mexer para um lado a atenção estivesse indo para outra parte. Não há uma integração; não há a consciência no movimento. No entanto a mente do homem que estava do meu lado, ia junto com o movimento corporal, tornando-o intenso de tal forma que quando ele aponta o dedo, toda a consciência corporal está ali, naquele dedo.
Cada músculo está inteiro em todo o movimento como se fosse uma massa compacta. Quando a consciência está focada, o movimento adquire uma sacralidade. É a força da integridade. Antes de entrar na Mesquita é feita uma limpeza com água em determinadas partes do corpo. Existe um local apropriado com várias torneiras e um espécie de banco feito de alvenaria para se sentar exatamente em frente à torneira. O ritual começa de pé e eu pedi permissão para filmar e não consegui...fiquei extasiada com o espetáculo que assisti bem na minha frente. O mulçumano começa estendendo as mãos para a água, esfregando-a uma na outra, lavando-as com lentidão e máxima concentração. Depois com as mãos molhadas fez movimentos circulares na região dos olhos, pausadamente, deixando que a água escorresse sobre sua tez bronzeada. Permanecendo com os olhos fechados e fazendo uma respiração pausada profunda levou a água em concha para o nariz e aspirou. Em seguida, cerimoniosamente abriu a túnica e dentro de uma beleza de movimentos coordenados e lentos, lavou o próprio ventre da forma mais linda que eu já vi um homem lavar o ventre.
A medida que se entrelaçavam as duas mãos deslizavam vagarosamente no abdômen rígido, acariciando junto com a água que se misturava com os pêlos e descia indo molhar o que não estava à vista. Com uma voz firme e grave recitava em árabe uma oração pedindo a purificação do corpo. Por mim eu passaria três horas assistindo esta parte mas foi curta demais pro meu gosto. Por último ele senta e leva os pés. Não percebi os detalhes da lavagem dos pés porque minha memória ficou presa na lavagem do abdômen. É lindo assistir um ato consciente. Quase me converto quando escutei o representante de Maomé recitar versos do Alcorão, onde se repete várias vezes o nome de Alah - único Deus (eles são monoteísta).
Conversando fora da Mesquita o muçulmano dono de grandes olhos negros, satisfez a minha curiosidade falando sobre seus hábitos. O fato da mulher se vestir deixando somente aparecerem os olhos é para não desviar a atenção dos homens. Aqui para nós, como eles são susceptíveis! Qualquer coisinha eles se distraem! Depois a conversa engrossou e ele me explicou que mesmo quando se casam, não é permitido que os corpos fiquem nus. A nudez, na concepção deles, desqualifica o ato. É como se perdesse o encanto. O casamento é com a alma e não com o corpo.
Além do mais, um muçulmano só pode se casar com uma muçulmana ou com uma cristã – única religião compatível. Neste momento lembrei da figura de minha avó responsável pelas primeiras raízes cristãs da árvore de minha atual concepção ecumênica. Atualmente o que mais me oferece respostas é uma Escola de Mistério que faz um estudo comparativo entre as cinco Tradições. Gosto da liberdade de estudar sobre todas as religiões e intuir o meu próprio caminho. Há muito o que se aprender, embora o importante é se praticar alguma coisa do que se aprendeu. Uma das lições mais lindas que aprendi com o meu primeiro e único amigo mulçumano é sobre a escolha de uma mulher. A escolha da mulher tem critérios bem diferentes dos brasileiros, pois é feita pela graça dos seus gestos, pela doçura do seu olhar, pela pureza do seu coração. Fixar a escolha no corpo não é o valor considerado pelo mulçumano.
Ter relação somente com um corpo é pobre, segundo ele, perde a graça. Na religião muçulmana, uma mulher tem que ter algo muito maior do que a carne para oferecer, algo mais que a beleza, uma coisa que comove e que eleva o homem e o faz querer ser melhor para “Alah”. Estava extasiada com tanta sensibilidade e poesia. Talvez seja por causa desses critérios de escolha que não haja divórcio nem separação entre os mulçumanos. Enquanto no Brasil, cada vez que eu leio a revista CARAS, a Adriane Galisteu está com um namorado diferente. E a fila anda. Quando a ligação é somente corporal, ela tem a tendência a se esgotar e com rapidez.
No caminho de volta ele me contou que já poderia formar o seu harém. Seu pai já havia dado algumas sugestões e ele ainda não havia se decidido casar-se. Na juventude, uma mulher brasileira lhe ensinou o português ( e outras coisas...) e apesar dela ser cristã, seu pai não permitiu o casamento. Ele respeitou o pai e, no entanto não conseguiu até hoje, já com trinta anos, aceitar nenhuma das mulheres que seu pai lhe ofereceu para formar o seu harém. Olhar para aquele mulçumano e ouvir sua história, me enterneceu. A contra gosto despedi-me com um “Chucria” que quer dizer “Obrigado” e quando me atrevi ao toque físico, percebi o incomodo. Ele baixou os olhos e fixou o olhar onde minha mão havia tocado seu corpo e depois os levantou fixando bem nos meus. Nesse momento tive vontade de me ajoelhar diante daquele olhar e pedir desculpas pela invasão. Esta história de “pegar” é muito do cearense. Pegamos no outro de forma irresponsável sem que naquele movimento venha um sentimento junto. Fui repreendida da forma mais elegante que um homem pode fazer. Na áfrica, na Ásia, no Oriente, na Europa e até no sul do Brasil as pessoas evitam o contato físico e costumam se cumprimentar com a fala e movimentos de cabeça. Chamego só aqui no norte e nordeste.
Na Índia, os templos hindus convivem com as mesquitas árabes e até com algumas poucas igreja católicas. Enquanto na Mesquita não se cultua imagem, existem espalhadas milhares de imagens em outros templos da cidade. O povo hindu necessita de imagens para visualizar a Divindade. Na formação em neurolinguística, aprendi que a imagem mental ajuda a plasmar um objetivo. Contudo não pode cristalizar para que o objetivo possa ser revisto de tempos em tempos de conformidade com os valores. Inclusive para determinar metas na vida comum é importante fazer cenas do objetivo já alcançando para facilitar o cérebro a unir e mobilizar as forças da psiquê em prol da consecução do objetivo. Isto é válido no mundo físico, mas nas questões espirituais, que estão fora da dimensão racional, prefiro utilizar a intuição. A mente humana é demasiadamente pobre para conceber a real e exata dimensão do divino, e deve se limitar a ser usada no mundo tangível e objetivo. Assim, a intuição é a mais indicada para visitar a dimensão metafísica.
O ideal é ter discernimento para saber distinguir quando usarei a mente concreta e quais compreensões só podem ser acessadas através da intuição. Em um mundo dual precisamos de amplas as ferramentas.
Nas minhas pesquisas constatei que algumas pessoas chegam na Índia buscando transformações radicais querendo cortar de uma só vez todos os seus vínculos com o modo de vida anterior. Existem casos de pessoas que dizem terem sido chamadas e, imediatamente, como num passe de mágica, se desconectam dos seus apegos, sua rotina, seu país de origem, sua família, passando a viver a serviço da causa espiritual. São transformações rápidas, que ocorrem de fora para dentro, do tipo varinha de condão, que a fada madrinha toca na cabeça da gata borralheira e ela se transforma em uma linda princesa. Em outras pessoas acontece um processo de dentro para fora, lento e com muito esforço, no qual a transformação é o fruto da disciplina e a perseverança. De maneira geral, todos nós estamos, de forma consciente ou inconsciente, buscando respostas para as perguntas básicas: - Quem somos nós? De onde viemos? E para que estamos aqui?
Embora muitos filósofos da antiguidade já tenham pensado nisso, o importante é que cada um encontre as respostas com o seu próprio esforço, usando o seu próprio discernimento. Isto não significa, contudo se fechar para as diversas compreensões, já que é saudável estar aberto a outras concepções para estudá-las. Podemos a cada maneira nova de pensar, refrescar, aguçar e expandir a mente. Quando estudamos sobre a veracidade de uma informação recebida estamos fazendo o exercício da reflexão e assim, ampliando nossos horizontes. Segundo Einstein, a cada expansão da consciência a mente não volta a ser a mesma. Observando a natureza dá para constatar que nada se repete. Há um movimento intrínseco em cada célula, em cada átomo que nos faz diferente a todo instante. E Heráclito dizia que um homem não se banha duas vezes no mesmo rio, afirmando assim que somos originais a cada respiração e únicos.
E dentro do espírito de conhecer a história, fui visitar o museu das religiões. Subimos em uma das montanhas, desta vez com um veiculo chamado tuktuk que na verdade é um motor de moto com casinha coberta na parte de trás e um banco para se sentar. Quase que essa tuktuk não conseguia chegar lá em cima. Na entrada do Museu tinha escrito: “É mais santa as mãos que ajudam, do que os lábios quer oram”. Outra sabedoria simples e profunda salta da frase “Servir para vir a ser”.
Bastava uma frase dessa colocada em prática, para valer uma vida. Preferi voltar à pé em estado meditativo. Por sinal tudo fica bem diferente, quando estamos nesse estado de relaxamento. Aumenta-se a capacidade de captar mais informações com maior qualidade.
Talvez seja por isso que a Índia, atualmente possui a melhor universidade de matemática e informática do mundo. Tem uma estatística americana provando que um corpo relaxado capta uma quantidade maior de informações. O interessante neste estado meditativo, é que aprendemos a estar inteiro em cada movimento. Por exemplo, ao entrar na fila do “fast food”, no Brasil, ao mesmo tempo em que conversava com uma pessoa, já ia olhando e escolhendo o que ia comer, pensando mais em saciar o desejo da língua de sentir o gosto, colocando no prato uma quantidade de alimento além da necessária para me alimentar. Quando me sentava para comer, ao encher o garfo de comida, antes de colocar o alimento na boca, já estava pensando na próxima garfada. De tal forma que ao terminar sentia uma sensação de empache e um prazer parcialmente satisfeito. Muita comida e pouca consciência.
Lembrando-me do ritual de limpeza do mulçumano resolvi estar inteira em cada garfada, para sentir o sabor por completo mastigando pausadamente, e em silêncio. O mulçumano me inspirou, dentre outras coisas, a colocar a informação em prática. Desta forma coloquei no meu prato mais qualidade do que quantidade, depositei com calma o prato na mesa e os garfos do lado, e rezei agradecendo e abençoando o alimento, o que diminuiu um pouco a ansiedade. Mastiguei com calma e pausadamente. Vale a pena experimentar fazer, de todo ato, um processo meditativo e contemplativo. Fazer cada ação sabendo o porquê de cada movimento. Além de gerar mais concentração, dá uma sensação de inteireza, a começar pelo processo respiratório de colocar consciência quando o ar entra nas narinas e quando ele sai. Na verdade, no intervalo destes dois movimentos tem uma vida. O primeiro movimento de inspiração no nascimento, e o último movimento de expiração, na morte. E assim a cada respiração é um convite de nascer para o novo e morrer para o velho.
Além de refletir sobre a profundidade de um simples movimento de respirar, podemos também rever outras ações automatizadas. A atitude de comprar também pode ser revista. Gandhi dizia que se cada pessoa tivesse somente o necessário, não existiriam os pobres. Para que tanto relógio se eu só tenho um braço? Assim a compulsão de comprar é reduzida. Comprei somente um vestido pensando que quando chegasse no Brasil teria a opção de fazer uma reforma encurtando a saia alguns centímetros, digamos uns sessenta centímetros no mínimo, aumentando o decote e encurtando as mangas. Comprei também um xale porque são obrigatórios para as mulheres cobrirem a cabeça durante o ritual. Escolhi um xale branco com muitos furinhos que serviria de acessório quando estivesse no Brasil. Fui barrada na entrada do baile, ou melhor, do templo.
A devota que examina a entrada no Mandir (nome dado ao templo) achou que tinha muitos buraquinhos. Não passou no controle de qualidade.
De noite não conseguia dormir elaborando uma serie de reflexões e aprendizados do dia. Dentro das minhas reflexões, lembrei-me de uma história do missionário Paulo, que foi motivo de zombaria, quando fez o seu primeiro discurso em Atenas, para falar do Cristo ressuscitado. A idéia básica do cristianismo, é que a busca de Deus está dentro de nós. Se isto é uma verdade, qual é o sentido dos templos e das imagens? Porque não podemos fazer do próprio coração o templo pra vivenciar diretamente a experiência divina? Será que é preciso ter intermediários? Porque se precisa de alguém entre eu e Deus? Será que não sou capaz de fazer o meu re-ligare por mim mesma? Tenho obrigatoriamente de pertencer a algum grupo e me comportar de acordo com as regras para receber a salvação? Preciso ter uma marca como se fosse um gado no pasto tendo um dono o qual decide o meu destino?
No meio dos pensamentos o sono se avizinha e as pálpebras pesam. Quando olho para o relógio, acrescento nove horas a mais para imaginar o que se está fazendo no Brasil, e me lembro que tenho um filho que daria certinho aqui na Índia, não só pelo temperamento Zen, mas também pelo fuso horário. No Brasil ele dorme de dia e fica acordado de noite. Na Índia, ele ia conseguir ficar acordado durante o dia e dormir de noite. Quanto a mim estou indo para a fila dos que querem dormir. O sono é tanto que não sei se vou conseguir esperar a minha vez.
Putaparthi, 21 de Janeiro – segunda
A visita ao Museu, no dia anterior me trouxe uma série de reflexões. Caminhar pela história das religiões é como caminhar pela própria história. É curioso, tão pouco tempo se passou e eu aprendi mais coisas do que em toda a minha vida.
Na antiguidade, a filosofia, a arte e a religião, eram discutidas enquanto um só bloco de interesse. Na Idade Média surgiu a necessidade de comprovar as descobertas de tal forma que houve uma cisão: o que fosse quantificável e tangível ficaria a cargo da Ciência. O intangível, isto é, as questões ligadas à fé – aquilo que não pudesse ser provado e somente experienciado ficaria a cargo do Clero, ou melhor, da Igreja Católica. A ciência fez grandes avanços. A Igreja foi responsável por grandes retrocessos. Muitos princípios religiosos irracionais e dogmáticos foram derrubados anos depois pelos filósofos do Iluminismo. Como era do interesse da Igreja, que as pessoas acreditassem que a Terra era centro do Universo, a descoberta de Galileu e Galileu foi negada. Quem assistiu o filme “Em nome da Rosa”, sabe que a Santa Inquisição promoveu um atrasado de 400 anos na humanidade, matando pessoas que tinham informações privilegiadas e queimando livros que relatavam descobertas relevantes. A Igreja Católica preferiu esconder as informações pois uma massa ignorante é mais fácil de ser manipulada. O Pastor das Igrejas localizadas nas periferias, que o diga.
Nesta noite, a lua é crescente, e na varanda desfruto a última noite em um quarto só meu. Amanhã terei de me juntar novamente ao grupo. A vila em que moro, especialmente hoje, está agitada. Na varanda em frente, uma mãe tenta falar com o filho, que em algum país do mundo, desliga o telefone, apesar da angustia em cada “Alô” repetidas vezes pronunciados. Um carro chega cheio de italianos e não dá pra saber se brigam ou conversam, e a vila inteira se agita. O macaco que mora no teto do prédio está meio assustado e um casal briga na varanda do prédio ao lado, em pleno céu estrelado. É o drama humano acontecendo ao mesmo tempo com atores e espectadores. Nada fica de fora, já que no teatro todos fingem ser tudo real. Uma mistura de drama, romance, suspense e aventura, que de longe vira um espetáculo cômico. Terei saudades desse espaço que um dia foi meu. Tirei uma foto da vila, onde aparece na fachada de um prédio um símbolo indiano que inspirou Hitler a criar a suástica. Meu prazo de estar longe do grupo terminara. Era minha última noite no Hotel e meu quartinho branco merecia uma despedida ritualista, tântrica de tal forma, que sentei na única cadeira existente e olhei cada detalhe, desde o piso, móveis e até as românticas janelas, visitadas por um macaco imprevisível. Dormi com gosto de saudade.
Putaparthi – 22 de janeiro – terça
E o dia amanheceu e o macaco que eu esperava não apareceu. Jamais poderia pensar em esperar um macaco para me despedir. Ele esteve me espiando em momentos que eu preferia estar sozinha comigo mesma. E agora que eu quero me despedir e tirar uma ultima foto para levar de recordação ele resolve não aparecer. O sol se misturava com o vento frio, trazendo o frescor das manhãs indianas. Cobri-me de pano, deixando só o rosto, mãos e pés do lado de fora e sentei-me para rezar. Hoje retorno para o grupo de brasileiros na promessa de que não roncaria, pelo menos quando tivesse acordada.
Dormindo não posso cumprir as promessas que faço. A solução para meu ronco é me manter acordada. Meu marido tem um jeito especial de me manter acordada de noite. Acho que talvez seja por isto que eu ainda não me curei deste ronco.
Antes de sair do quarto definitivamente, dei uma olhada no espelho e achei que, no espelho da minha casa, eu sou mais bonita. Agora o que estou treinando a visão de longo alcance, vejo em mim uma alma e um corpo sem mais opção de rejuvenescer. Não há mais retorno. Não há como retardar o processo natural. O melhor é envelhecer com dignidade. Para que o processo seja menos doloroso é preciso fazer a troca de valores. Para que as rugas possam ser vitórias meritórias. Obrigada espelho por cumprir a missão de mostrar aquilo que não queremos ver.
Valeu a pena ter deixado o grupo por uns tempos? Valeu. Ficar sozinha comigo mesma é uma oportunidade de colocar em ordem as idéias para ao final descartá-las e buscar outras para substituí-las. É a dialética do pensamento humano. E assim, sai do cantinho branco sem me despedir do macaco ingrato. Levo um retrato dele na máquina de fotografia. Nos braços sinto o peso da mala de rodinha que está mais pesada e cheia. No coração sinto um misto de querer ir e ao mesmo tempo, querer ficar. Virei, no final da rua, sem olhar para trás.
Ao voltar para o Ashram, dá para perceber que existem acomodações de todos os tipos, umas com privilégios e outras mais simples sem chuveiro quente e bidê. Existem também acomodações não só para abrigar os corpos das pessoas mas para abrigar também a intenção e as necessidades de cada um. Tem pessoas que procuram o Guru para resolver seus problemas pessoais, dando provas incontestáveis da crença em sua própria incapacidade. Outros porque são humildes em perceber que são realmente incapazes de se resolverem sozinhos. Outros precisam resolver questões materiais para gerar um espaço favorável ao desenvolvimento espiritual. Outros chegam como um grito de socorro, vítimas de seu próprio aprisionamento ao sensório onde a espiritualidade é buscada para gerar uma sensação de estar bem. Enfim, as intenções são as mais variadas e o melhor é não julgar e deixar cada um dentro da sua liberdade de expressão e de viver a própria vida usando o livre arbítrio, se é que ele existe. Talvez eu queira ser a palmatória do mundo ao afirmar que querer usar o poder de concentração energética do Avatar para resolver problemas pessoais é pensar individualmente. O líder espiritual da dimensão de Sai Baba está envolvido nas questões estratégicas coletivas.
Independente do Guru escolhido, quando se decide não maltratar mais os outros, ainda que isto venha a ferir os seus próprios interesses, nesse momento se é livre e feliz sem precisar recorrer a nenhum Guru. Kant dizia ”Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito :o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.” Acredito que o agir dentro da retidão, automaticamente, elimina os conflitos. Siga o que é correto e não terá conflitos, e se os tem, procure resolver o conflito dentro de si, escolhendo a ação correta. Esta é a chave que irá abrir as portas da cadeia. A solução está dentro, mas tem gente querendo resolver as coisas só com palavras, sem se dar conta que tem uma ação interna que deverá vir depois da palavra. Tem muita gente querendo resolver a coisa fora querendo: reformar o marido, melhorar o chefe, afastar a sogra. Tudo e todos que estão fora do alcance não há como interferir diretamente.
E quando não conseguem, sentem-se infelizes e se estressam. Uma boa forma de resolver por si o conflito é indagar qual a minha responsabilidade para aumentar ou manter o conflito? Em um dos livros do Osho, Guru do Sul da Índia, existe uma pergunta intrigante: O passarinho canta porque é feliz, ou é feliz porque canta? Quando conseguimos entender a profundidade do questionamento percebemos que o passarinho toma uma atitude de cantar e então como conseqüência recebe o produto de sua ação. Podemos então fazer uma analogia com a realidade corporativa ao refletir sobre a seguinte pergunta: Estar bem para produzir ou produzir para estar bem? E me vem uma clara compreensão que enquanto se espera que venha algo de fora é como querer pegar em uma corda que não se sabe se está realmente bem segura. A segurança real está depositada no centro do self . A partir do self há um poder. Quando se busca fazer algo dentro, o universo responde fora. Goethe falava que quando há um sonho em movimento as forças do universo se alinham...
A noite chegou rápido e olhei para as estrelas no céu e me dei conta da imensidão da criação. Viver dentro da lei moral talvez seja uma maneira de trazer o brilho das estrelas para dentro de si...o caminho do mistério aponta para dentro. Dormindo, quem sabe, alguma estrela venha iluminar o céu da minha existência. Em sonho tudo pode!
Putaparthi 23 de janeiro – quarta
Hoje acordei com vontade de negociar. Depois do asseio corporal, das rezas , das filas e do café, vou procurar o joalheiro muçulmano Altaf o qual apelidei de Alface. Adoro alface principalmente molhado no azeite com limão e sal. Atalf foi o Alface mais lindo que já conheci em toda a minha vida. Além de traços exóticos de rara beleza, um homem religioso e um bom professor de negociação. Acabei fazendo um curso intensivo de Vendas ao vivo e a cores. Herdeiro de uma Indústria de Jóias, dono de uma cadeias de lojas, vive com simplicidade na cidade que oferece um bom comércio de exportação de jóias para o Brasil já que fala o idioma e convive com muitos devotos brasileiros. Fiquei sentada em uma das almofadas da loja, observando a estratégia de venda. Altaf abre o pacotinho de jóias e lentamente as espalha pacientemente com o dedo.